Eu Ainda Estou Aqui; de Férias!


As férias anunciadas da Cassie. O sagrado descanso que ela tanto pediu, e que, claro, ela escolheu tomar em pleno fevereiro, vésperas de Carnaval. Cassie não pensou em datas festivas. Ela pensou apenas em dormir sem compromissos. Iludida!

A cidade, um “ajuntamento de búzio”, uma língua antiga, um povo indígena, um lembrete para uma essência vivida. Cassie, vamos aproveitar o descanso, vamos encontrar a felicidade observada na beleza dos olhos alheios. Vamos sair num passeio marítimo e estourar a champanhe para celebrar seu divórcio. Mas Cassie dormiu, dormiu, dormiu. E sonhou que o Valentin está a caminho… talvez ele tenha jogado os remos fora igual a você e esteja num barco à deriva. Mas a cidade sem cabo é fria. As pessoas são. Ela é um tipo grande de quebra-cabeça, e todos estão tentando encontrar uma peça para encaixar seu lugar nela. Mas, será que ela está preparada para receber tantos turistas?

As mudanças do novo governo estão no ar, gerando variadas opiniões e discursos. Há bagunça de obra e ordenamentos, mas o Executivo está fazendo um ótimo trabalho, garantindo que todos tenham uma história de melhoria para contar. A vida vai melhorar, a cidade está cheia de visitantes, todos sempre ansiosos para aproveitar o sol, o mar e a beleza Tupi. E, é claro, que os mineiros não podiam faltar, parecem ter invadido a cidade, não devo dizer que são como pragas, mas parecem, brotam em todo lugarejo que tem água e areia.

E Cassie quer apenas um pouco de silêncio e paz, horas tranquilas à observar as aves à nadar, curtir sua própria pele, molhar seus próprios lábios, adormecer o corpo em cima de alguma pedra padroeira e não hesitar pensar no que quiser ou quem quiser.

Mas a brisa é interrompida por cortejos antigos, por canções duras, por poemas lavados na costa… Janaína, o que está acontecendo na cidade? Estado de fluxo constante, pessoas mudando o tempo todo, casas cheias e vazias, lares sendo invadidos e vendidos por estranhos que insitem em habitar, mas, não cumprem o dever e a sabedoria de amar e respeitar.

Todo caos é temporário! Porque caos traz movimento e ação traz vento. A lâmina corta para os dois lados. Balança é justa. O equilíbrio começa comigo, termina contigo.

Estou na balança tentando usar a bússola para encontrar (reencontrar!) meu corpo, minha voz, minha história, minha escrita, meu lugar. Qual a história do seu lugar?

Cassie, está terminando as férias! Ela queria praia, sombra e cachoeira. Eu queria levá-la ao surrealismo de Salvador Dali. Cassie quer visitar as igrejas e os museus das cidades. Quer levar flores para o Bonfim, mas, eu duvido que ele consiga, com todos os acidentes e interdições que estão acontecendo.

Operadora de viagem Azul devolve minhas passagens em dinheiro! Ela queria um passeio de jangada em João Pessoa, um frevo em Olinda, um surf a dois em Bali. Mas sem dois, sendo uma, cantarola Cynthia Luz, “nem tudo é como a gente quer, mas sei que nessa vida é como D-us quiser, se ontem me mantive pra ficar de pé, encaixo essas peças onde eu puder…”

Cassie teve que se contentar com banhos de borracha, de chuveiros, de piscina alugada, de praia, balde de folhas e flor e rio. E, claro, uma cachaça natural de beterraba para ajudar a esquecer os problemas. É como se o verão estivesse acabando e o último sol está à queimar a alma enquanto vai descendo atrás daquele velho morro.

Eu devia ter aceitando aquela bebida nada barata do Francês, mas preferi brindar a quentura do corpo num date comigo. Amanhã será mais calor, a temperatura não irá cair nos próximos dias. Acho que li que o preço do gás caiu (caiu? Pagarei menos de cem reais?). Mas em compensação a galinha deve ter ouvido que a mensalidade do próximo mês da academia está paga.

Será que ainda poderei degustar e oferecer café? Será que o Primo Rico ainda acha que não precisa cortar o cafezinho? Fora ou dentro da cidade o crédito para a cesta básica dos irmãos está enfrentando desafios. Eu não fiz o “L” de liberdade. Eu defendo o direito de viver a liberdade de escolhas, defendo a ideia de que somos seres livres para decidir caminhar com direitos respeitados.

Mas acho que estou sendo assaltada toda vez que preciso comprar comida. Os preços estão mais altos do que o Morro da Guia. Café, ovo, frango, legumes e verduras; açaí… tudo elevado, elavado, elavado. Até o sorvete, que Cassie não gosta, parece mais econômico que o normal, se quando comparado ao básico da semana.

Eu devia ter seguido meu conselho e ter plantado comida. Ainda é um bom conselho. Plante sua comida, faça escambo na comunidade, venda o excesso. Agricultura familiar básica. Sintrópica, permacultura. Mas no vapor do verão tudo vai se encaixando, as horas nos dias e os dias nos passos da conta corrente.

Cassie, assim como qualquer brasileiro está lutando para equilibrar a realidade da vida. Mas há uma verdade que não pode ser ignorada: a água é a vida. Água é alimento, é sentimento, é emoção, é cura, é mãe que abraça. Não deixar o coração secar, é o conselho que devo entregar (possível que para mim mesma).

A vida pode tornar-se dura e seca. As lavadeiras do rio sabem que a luta pela sobrevivência é diária, por isso, suas canções contam histórias resilientes. Com peneira, não dá para extrair água em nenhum rio. Viver com sabedoria requer forjar as ferramentas certas para serem usadas em ambientes desafiadores. Com ferramenta correta, não se passa fome, nem sede.

Guardiãs não desistem, são fortes como as Mães.

Queria te dizer a velha frase: sê forte e corajoso, mas hoje eu só quero te lembrar que não precisa fazer força para ser feliz. Apenas seja. Pega um xêro e um queijo. Um beijo na ponta do nariz.

Pega um história de seus avós, tenho certeza que há de ter algum conto sobre os rios que fluíam como veias pulsantes, trazendo vida e fertilidade para nossa terra. “O destino é escrito nas mãos, mas é o coração que escolhe o caminho”, então, escolha aquecer o coração com fontes que enriquecem a alma de artista, de poeta, de sonhador, de moço alegre e de mulher feliz e realizada.

As mães sabem que as respostas não são simples, inclui um bucado de respeito pela natureza e pela vida alheia e pela própria vida. Mas as lavadeiras dos rios, com suas mãos fortes começam a trabalhar mesmo sem ferramentas adequadas. Elas cavam poços, constroem barragens, e plantam árvores. Fazem oferendas para as Deusas, pedem chuva e fertilidade para a terra. E dançam, ao som dos tambores, invocando as forças ancestrais da natureza para trazer vida e prosperidade, não para elas, mas para a comunidade.

Que sejamos abençoados com o pão, o sal e o vinho! Que as águas fluam, que nossa terra seja fértil! Que a vida brote em abundância, e que a natureza seja respeitada e preservada… Baxt, sastimus!

P.S. Ainda Estou Aqui, finalmente assisti o filme, mas eu também ainda estou aqui, e não quero uma Cyber-shot, sigo à observar os mais jovens conquistando os gostos dos mais velhos. Estou à vender uns vinis, cinco mil réis, entrego em mãos aos Cariocas, não sei das condições, não tenho mais vitrola para testar. Vocês ainda ouvem vinis?

Cassie olha para mim e sorri, ela está de férias, encantando músicas, vidas, versos e a própria sorte. Ela encaixa peças e eu ainda estou aqui, observando, escrevendo, tentando entender o que está acontecendo nessa terra.


Respostas

  1. Avatar de gustavo_horta
    gustavo_horta

    Felicidade. Sempre.

    Essa é a nossa ÚNICA obrigação nesta vida sobre a superfície da Terra.

    Receba as bênçãos universais, abundantes, permanentes e pra todos nós!

    1. Avatar de srtacas
      srtacas

      Assim seja. Alegrias e bênçãos. Obrigada por suas observações.

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