Eu Morro

Eu sempre morro. Ao pôr do sol, eu morro. Morro quando fecho a porta e tiro a roupa do dia, morro enquanto a água do chuveiro escorre os restos mortais amontoados sobre a epiderme. Morro quando coloco a roupa que virou pijama de inverno, quando as estrelas invadem as janelas dos quartos, quando mergulho no… Continuar Lendo →

Paraíso

Sobre a realidade do sentir, os versos que fiz para mim, em que sentimentos nulos se diluem sob a chuva que cai aqui. A folha que borra a tinta, o desenho distorcido na parede, reflete o chão encharcado de cor, onde risquei a poesia e desfiz o amor. A água insiste em percorrer, apagando a... Continuar Lendo →

O som da manhã.

A beleza da orquestra das quatro e pouco,quando a cidade ainda não dorme. Um galo ensaia ao longe.Um ônibus ou outro acorda a rua.A primeira porta se abre. E os pássaros,esses músicos sem salário,já afinam as ruas nos galhos. Tem um jornal qualquer,uma notícia nova,uma canção antiga. Decido que quero de voltameu rádio de pilha…. Continuar Lendo →

Eu sou o que consigo ser

Eu estou onde consigo estar,E sou o que consigo ser no presente.Não é muito, nem é pouco,É o que sou. O que permito ser.Ontem, fui venerável, e, suscita,Hoje, esgotada, frágil e esplêndida.Amanhã, não sei... Quem sabe?Sou como uma pétala caída na calçada,Um jarro de mesa no Shabat,Um simples buquê de aniversário.Caule, botões, espinhos, raízes,São partes... Continuar Lendo →

Tarde

Uma da tarde…Sol, chuva, vento,Ausência da água,Presença do aflato,Nuvens, céus. Dois da tarde…Sol, água, bafejo,Ausência do vento,Presença da garoa,Nuvens, sol. Três da tarde…Sol, bochorno, chuvisco,Ausência do apagador,Presença do Éolo,Nuvens, céus. Quatro da tarde…Sol, borriço, sueste,Ausência de mim,Presença de tu,Nuvens, sol. SOLdade. Inspiração, dezembro de 2021.

Tinha um Texto

Estava programada para subir até as nuvens lilás, até a entrada da casa do sol. Um texto sem cor, sem linha tênue, sem sentimentos, achismos, divindades, poesias ou flores. Um texto vazio, só palavras e algumas estrofes. Preparei uma escada de cetim, trançada com renda e pérolas. Estava pronta para subir com os versos. Levaria… Continuar Lendo →

O corpo que habito

Eu tenho um corpo que habito.Um corpo velho e fatigado.Ossos quebrados.Luzes afastadas.A dignidade roubou a cena.A mente, de tanto abrigar, também se faz lapso e ruína.Há um momento em que o corpo deixa de ser promessa distante e passa a ser testemunho vivo.Testemunho do tempo.Das perdas.Daquilo que não voltará a nascer.Daquilo que já não pode… Continuar Lendo →

António de Categeró

António, teu nome chega devagar, como cadeira arrastando no terreiro antigo da memória.Há santos que vivem nos altares.Tu escolheste as portas.As entradas gastas, os corredores estreitos, as esquinas onde o povo baixa a cabeça para continuar vivendo.Te encontrei numa manhã de calor excessivo, entre passos cansados no Largo, quando o Centro inteiro parecia mastigar ferrugem... Continuar Lendo →

Namorado, VI

Esse ano não tem carta. Tem algum doce de lástima e cansaço. Vou escrever é para o António, talvez ao Marujo. Talvez eu vá à feira comprar camarões vermelhos, farinha de milho, cebola roxa e alguma flor para colocar na mesa. Talvez compre um ramo de alecrim para enfeitar o copo da vovó. Os anos... Continuar Lendo →

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