
Quase almoço.
Rio de Janeiro está pegando fogo.
Zona Norte, 36°.
Você já bebeu água hoje? Molhou as plantas? Os lábios? A mente?
O calor não pede licença. Ele entra pela pele, pela nuca, pelas frestas do pensamento. O asfalto ferve como panela esquecida no fogo, e a cidade exala um cheiro de ferro quente, sal antigo e pressa. O corpo aprende cedo que sede não é só falta de água. É falta de pausa. É falta de escuta. É excesso de engolir o mundo sem mastigar.
Tem gente que atravessa o dia sem beber um copo d’água, mas bebe expectativas aos goles largos. Engole promessas, mastiga pouco, sorri muito, arrota silêncio. Quem de tudo degusta, uma hora regurgita. O corpo cobra. A alma também.
Use seus próprios remos ou se jogue do barco.
Não estou aqui para salvar a embarcação de ninguém.
Há uma dignidade silenciosa em aceitar isso. Não é dureza, é lucidez. Não é frieza, é limite. Cada um precisa aprender o peso da própria travessia, o ritmo da própria maré, o custo de fingir que sabe nadar quando só aprendeu a flutuar nas costas dos outros.
A minha, eu mesma soltei das mãos.
Devolvi os remos ao mar.
Foi um gesto simples e radical, como quem tira o sapato depois de uma longa caminhada e sente o chão pela primeira vez. Soltar não foi abandono. Foi escolha. Passei adiante o cais. Entendi que porto demais também aprisiona. Há ancoragens que enferrujam a coragem.
Reaprendo a nadar enquanto avisto outros portos. Não corro. Não disputo. O corpo vai no compasso do fôlego. Braçada curta, atenção longa. A água ensina. Ensina que afundar não é o fim, é parte do percurso. Ensina que o medo cansa mais que o mar.
Ninguém deve nada ao naufrágio alheio.
Essa frase tem gosto de sal e verdade. Não é falta de compaixão, é maturidade. A verdadeira dificuldade não está em lidar com os outros, mas sim em lidar com nossas próprias expectativas e receios. Esperamos demais. Dos afetos, dos acordos, das promessas não feitas. Criamos mapas para mares que não existem e depois culpamos o vento.
No quase almoço, o cheiro de comida sobe das casas. Arroz, alho, cebola dourando. A vida insiste no ordinário. O ventilador gira cansado, empurrando um ar morno que ainda assim salva. Há beleza nisso. No simples. No possível.
A melhor magia que alguém pode fazer é construir caráter. Não brilha, não faz barulho, não viraliza. Mas sustenta. É ele que impede que a gente se transforme em ruína quando a maré vira. É ele que nos ensina a dizer não sem culpa e sim sem dívida.
Molhe as plantas. Elas sabem quando a água vem por cuidado ou por culpa. Molhe os lábios. Palavra seca fere. Molhe a mente. Pensamento hidratado não racha fácil.
O Rio segue quente. O mundo segue exigente. Mas há um tipo de frescor que não vem do clima. Vem da escolha diária de não se perder de si tentando salvar navios que nunca foram seus. Vem de aceitar que nadar cansa, mas afoga menos do que fingir.
Quase almoço.
Respira.
Bebe água.
E segue.
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