Palavras dançam na escuridão, Gestando versos sem fim nem começo. Na solidão, a poesia nasce, E o silêncio se torna minha amiga. E a alma se liberta no papel.
Letras se entrelaçam, sonhos se desfazem, E a realidade se distorce, se desfaz. No labirinto da mente, a palavra Se busca, se encontra, se recria. E a poetisa se perde em seu mundo.
Versos são sementes, poemas são flores, Que brotam da alma, do coração. A poesia é um parto doloroso, Mas também é um renascimento. E a palavra é a chave do universo.
Na noite escura, a luz da inspiração Ilumina o caminho da poetisa. E a palavra se torna uma ponte Entre o real e o imaginário. E a poesia se torna uma prece silenciosa.
Aqui não é o paraíso, mas um lugar Onde a palavra se torna realidade. A poetisa é uma criadora, Que molda o mundo com sua imaginação. E a poesia é sua maior criação.
Hoje que seja esta ou aquela, pouco me importa. Quero apenas parecer bela, pois, seja qual for, estou morta.
Já fui loura, já fui morena, já fui Margarida e Beatriz. Já fui Maria e Madalena. Só não pude ser como quis.
Que mal faz, esta cor fingida do meu cabelo, e do meu rosto, se tudo é tinta: o mundo, a vida, o contentamento, o desgosto?
Por fora, serei como queira a moda, que me vai matando. Que me levem pele e caveira ao nada, não me importa quando.
Mas quem viu, tão dilacerados, olhos, braços e sonhos seu se morreu pelos seus pecados, falará com Deus.
Falará, coberta de luzes, do alto penteado ao rubro artelho. Porque uns expiram sobre cruzes, outros, buscando-se no espelho.
Cecília Meireles
Rosa
Eu sou a flor mais formosa Disse a rosa Vaidosa! Sou a musa do poeta.
Por todos su contemplada E adorada.
A rainha predileta. Minhas pétalas aveludadas São perfumadas E acariciadas.
Que aroma rescendente: Para que me serve esta essência, Se a existência Não me é concernente…
Quando surgem as rajadas Sou desfolhada Espalhada Minha vida é um segundo. Transitivo é meu viver De ser… A flor rainha do mundo.
Carolina Maria de Jesus
Ser Mulher
Ser mulher, vir à luz trazendo a alma talhada para os gozos da vida: a liberdade e o amor; tentar da glória a etérea e altívola escalada, na eterna aspiração de um sonho superior…
Ser mulher, desejar outra alma pura e alada para poder, com ela, o infinito transpor; sentir a vida triste, insípida, isolada, buscar um companheiro e encontrar um senhor…
Ser mulher, calcular todo o infinito curto para a larga expansão do desejado surto, no ascenso espiritual aos perfeitos ideais…
Ser mulher, e, oh! atroz, tantálica tristeza! ficar na vida qual uma águia inerte, presa nos pesados grilhões dos preceitos sociais!
Gilka Machado
Telha de vidro
Quando a moça da cidade chegou veio morar na fazenda, na casa velha… Tão velha! Quem fez aquela casa foi o bisavô… Deram-lhe para dormir a camarinha, uma alcova sem luzes, tão escura! mergulhada na tristura de sua treva e de sua única portinha…
A moça não disse nada, mas mandou buscar na cidade uma telha de vidro… Queria que ficasse iluminada sua camarinha sem claridade…
Agora, o quarto onde ela mora é o quarto mais alegre da fazenda, tão claro que, ao meio dia, aparece uma renda de arabesco de sol nos ladrilhos vermelhos, que – coitados – tão velhos só hoje é que conhecem a luz doa dia… A luz branca e fria também se mete às vezes pelo clarão da telha milagrosa… Ou alguma estrela audaciosa careteia no espelho onde a moça se penteia.
Que linda camarinha! Era tão feia! – Você me disse um dia que sua vida era toda escuridão cinzenta, fria, sem um luar, sem um clarão… Por que você na experimenta? A moça foi tão vem sucedida… Ponha uma telha de vidro em sua vida!
Rachel de Queiroz
Eu
Sou composta por urgências:
minhas alegrias são intensas; minhas tristezas, absolutas. Entupo-me de ausências, Esvazio-me de excessos. Eu não caibo no estreito,
eu só vivo nos extremos. Pouco não me serve, médio não me satisfaz, metades nunca foram meu forte! Todos os grandes e pequenos momentos,
feitos com amor e com carinho, são pra mim recordações eternas. Palavras até me conquistam temporariamente… Mas atitudes me perdem ou me ganham para sempre. Suponho que me entender
não é uma questão de inteligência e sim de sentir, de entrar em contato… Ou toca, ou não toca.
Clarice Lispector
Ofertas de Aninha (Aos moços)
Eu sou aquela mulher a quem o tempo muito ensinou. Ensinou a amar a vida. Não desistir da luta. Recomeçar na derrota. Renunciar a palavras e pensamentos negativos. Acreditar nos valores humanos. Ser otimista. Creio numa força imanente que vai ligando a família humana numa corrente luminosa de fraternidade universal. Creio na solidariedade humana. Creio na superação dos erros e angústias do presente. Acredito nos moços. Exalto sua confiança, generosidade e idealismo. Creio nos milagres da ciência e na descoberta de uma profilaxia futura dos erros e violências do presente. Aprendi que mais vale lutar do que recolher dinheiro fácil. Antes acreditar do que duvidar.
Cora Coralina
Da calma e do silêncio
Quando eu morder a palavra, por favor, não me apressem, quero mascar, rasgar entre os dentes, a pele, os ossos, o tutano do verbo, para assim versejar o âmago das coisas.
Quando meu olhar se perder no nada, por favor, não me despertem, quero reter, no adentro da íris, a menor sombra, do ínfimo movimento.
Quando meus pés abrandarem na marcha, por favor, não me forcem. Caminhar para quê? Deixem-me quedar, deixem-me quieta, na aparente inércia. Nem todo viandante anda estradas, há mundos submersos, que só o silêncio da poesia penetra.
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