Preciso aprender a desenhar; pintar os lugares mágicos que visito enquanto durmo.
Nota: Eu sou mais feliz quando durmo!


Acho que sonhei com Marina. Ela ria, sorria, ela criava. Acho que foi com Mari e quintais cheios de folhas espalhadas, voando com dentes-de-leão e garças… Acho que com cachorros bonitos correndo entre mamoeiros.
“Cê planta inhame nesta casa?” Com estacas! Eu entendi o recado.
Acordei tentando descrever tudo que senti, ouvi e vi; inútil. Eu ouço tanto que… Só quis ouvir a suavidade da oração, do tom, da voz, das palavras, do brilho do sorriso, do serenar da alma.
Tentei e não consegui escrever uma palavra, nem saudades, nem alegrias, nem versos que ninguém lê. Mas compreendo: há tempo de espalhar e tempo de juntar, de comer carambolas, cajas e laranjas. E tempo de cuidar das sementes dos anos sabáticos. Tempo de podar gente e tempo de adubar as raízes da gente, com as vozes e os saberes dos Mestres ancestrais.
Em que tempo estás? O calendário com D-us é diferente, e o tempo com D-us é sempre benção. Invista! Dê-lhe o que for necessário. Nada que fica no Altar se perde. Nada!
Hoje (ontem), depois de molhar o corpo com os líquidos do próprio corpo, de observar urubus sobrevoando as águas do rio que escorre tudo para o mar, lembrei-me de outro sonho e percebi o quanto me isolei de mim, do quanto me despedi de quem fui e sou, do quanto encerrei sem passe para ressuscitar. Enterrei até quem almejava ser. Perdão. E perdão também aos que precisam se perdoar por todos os males que eu criei.
Viver e sobreviver é uma linha tênue, e neste mundo é necessário ter pele de rinoceronte. Mayse concorda comigo, e ela também há de concordar que na vida, o bom presente é estar presente com vida abundante, com alegres histórias e com esperança de tempos favoráveis.
Em que tempo estamos? Ainda cultiva orquídeas? Sua Flor deve estar tão bela. Eu desisti das flores. De todas as formas que haviam. Me basta só viver.
Achei que o pai havia falecido. Angustiei-me terrivelmente. Mães sofrem! E seres deixam notícias e sentimentos esquisitos em nós.
Nota: Por que não sorri para Marina? Por que não a abraçamos por mais tempo? Por que não vi seu retrato no Natal? Só vi falésias e saudades e algumas faltas. Mas eu vi Lótus e vi Luz!
Acho que sonhei com Marina…
Uma muda de coentro, duas alpargatas, cem fios de cabelos brancos, uma agenda antiga do ano em que a vida parou.
Perdi dois anos. Deve ser esse o pensamento ou sentimento, mas ganhei um ano guardada nas mãos da Existência; mesmo morta, sobrevivo nos belos cuidados do Eterno.
Caixas de papelão, compras demais, mudanças de alguns e camas para um montão de gente fria e solitária. Duas lágrimas.
Ando chorosa; eu sempre fui, na verdade. Chorei por tantos motivos tolos e guardei lágrimas por motivos nobres.
Helicópteros, acordemos! Podem passar com seus barulhos e insultos e levar-nos daqui? Aviões não têm porta-luvas, mas levam cães e gatos para saciarem saudades. Sorte!
As palavras estão empoeiradas na mesa, junto com o café frio que bebeste, mas é porque assim o fizeste, com água em temperatura ambiente, deixado numa beira de janela em pleno inverno europeu. Congelou.
O vento solidifica qualquer líquido no caminho: café, gin, chuva ou lágrima… E o meu vinho sem álcool combina com as palavras enterradas no canteiro da rua, daquela mesma rua que passaste todo dia santo para ir planejar o futuro.
Por onde andam os teus sonhos?

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