Quando você entra…




Há momentos na vida em que sentimos que estamos “entrando” em algo novo. Uma nova fase, uma mudança de ciclo, uma travessia delicada. Pode ser o início de um projeto, de um trabalho, um novo relacionamento, uma perda que nos redesenha por dentro ou simplesmente aquele sentimento sutil de que algo dentro de nós precisa se mover.

É sobre isso que fala a Parashat desta semana, Ki Tavo, que significa “Quando entrares”. Mas não é qualquer entrada. É a entrada do povo na Terra Prometida. Um lugar tão sonhado, tão falado, mas que, quando finalmente é alcançado, exige muito mais do que festa.

A sabedoria ancestral da Torá e especialmente da Cabalá nos lembra que essa “terra prometida” não é só geografia. É também um estado de alma. É o lugar onde finalmente nos reconhecemos. Onde a espiritualidade deixa de ser conceito e se torna prática viva, sentida no corpo e no cotidiano.

Será que você já parou para notar em que “terra” sua alma está entrando agora?

As Primícias da Alma

Logo no início da Parashat, há um gesto profundo: o povo deve trazer os primeiros frutos da terra — os Bikkurim — como um ato de gratidão.

Mas esse gesto é mais que simbólico. É um lembrete. Mesmo depois de tanta luta, mesmo depois de finalmente alcançar o que tanto se esperava, o primeiro movimento não é de ego, mas de reconhecimento.

Quantas vezes a gente chega onde queria e esquece de agradecer? Quantas bênçãos passam despercebidas simplesmente porque nosso olhar está treinado para o que falta e não para o que já chegou?

O exercício de gratidão tem algo de mágico. Ele não muda os fatos, mas muda o modo como os sentimos.

E se, esta semana, você entregasse ao sagrado os “primeiros frutos” do que tem vivido? Um pequeno avanço, uma superação, uma relação que está se curando. Algo seu, íntimo, mas precioso.

Servir com Alegria

Um trecho impactante da porção diz que as coisas se desequilibram quando não servimos com alegria e com coração pleno.

É curioso. Não diz que o erro está em deixar de cumprir regras, mas em viver sem alegria. Como se o universo nos dissesse: não basta fazer o certo, é preciso fazer com alma.

Talvez por isso tanta gente, mesmo “fazendo tudo certo”, ainda sente um vazio. Porque o que alimenta a alma não é o ritual por fora, mas a presença por dentro.

O que você tem feito por obrigação, mas já perdeu o sentido? O que está pedindo para ser ressignificado ou talvez encerrado com amor?

E mais ainda: onde você pode colocar mais presença, mais alegria, mais inteireza?

A Voz que Clama

Em paralelo à Parashat, os Salmos 10 a 12 acompanham essa travessia interior. São como espelhos da alma em tempos de crise e esperança.

O Salmo 10 começa com uma pergunta que muitos já fizeram, mesmo sem saber que está na Bíblia: “Por que Te escondes em tempos de angústia?”

É a dor de quem olha o mundo e vê injustiça, impunidade, gente boa sofrendo calada. É também o grito de quem não entende por que certas coisas aconteceram. Ou por que o silêncio espiritual às vezes pesa tanto.

Mas, ao longo dos versos, algo muda. A voz se eleva, não com desespero, mas com confiança. Como quem aprende a confiar mesmo quando não entende.

Você já viveu momentos assim? Em que parece que tudo em volta está escuro, mas dentro nasce uma pequena luz que insiste em brilhar?

O Salmo 11 responde com firmeza:
“No Eterno me refugio. Como vocês dizem: fuja como um pássaro para os montes?”

É um lembrete: não fugir. Não abandonar a si mesmo. Não escapar daquilo que está pedindo coragem. A espiritualidade, quando verdadeira, não nos afasta da vida, nos ancora nela.

E o Salmo 12, por fim, fala sobre a perda da verdade: “Desapareceram os homens fiéis”, diz. Mas então afirma que as palavras do Eterno são puras como prata refinada.

Ou seja, mesmo quando tudo parece contaminado, ainda existe um lugar de pureza possível. Uma verdade que não se corrompe. Uma essência que o mundo não pode tocar. E ela está talvez bem dentro de você.



Estamos em Elul, o mês que antecede Rosh Hashaná. O mês do retorno.

É como se o tempo nos desse essa chance: antes de virar o ano espiritual, pare. Olhe. Reflita. Revise seus caminhos, suas motivações, suas falas, seus silêncios. Mas não com culpa. Com amor. Com aquela coragem doce de quem se encontra de novo depois de muito tempo.

A Parashat Ki Tavo e os Salmos 10 a 12 caminham juntos: um fala sobre como “entrar” de verdade na vida que queremos viver, o outro nos ensina a lidar com as sombras que encontramos no caminho, tanto fora quanto dentro.

Que fica no coração…

Que esta semana seja um convite sutil, mas firme, a viver com mais gratidão, mais alegria e mais presença. Que os Salmos não sejam só textos antigos, mas companheiros vivos nas suas pausas e orações. E que, ao entrar nesse novo ciclo, seja ele qual for, você não vá sozinho(a). Que vá com coragem. Com lucidez. E com amor.

Shavua Tov! Que seja uma boa semana de alma leve, de olhar desperto e de passos firmes no caminho que te chama.

Meditação: Parashat Ki Tavô (כִּי־תָבוֹא) – “Quando entrares” – Deuteronômio 26:1–29:8 | Salmos 10–12

Fontes: Chabad.org, ensinandodesiao.com.br, Tanach (Bíblia Hebraica) e Zohar.

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