Qual é sua bebida favorita?
Doses, eu bebi da bondade sorridente, virei dois copos de lembranças e dormi conosco em noites de verão e inverno, foste meu verbo por muitos meses, escrevi errado, você nunca foi verbo. Sua mãe, esse tipo de gente que dura mesmo depois que o corpo descansa, parece que a vi sorrir, parece que a vi entristecer, mas nós, filhos, somos movimento do nosso próprio caminho, um dia será a gente com nossas meninas. Seu olhar era triste quando dizia que estava numa aliança feliz, agora ele é alegre nesse trem de passagem, ou será efeito da lente? Dos meus óculos ou dente? Quantas vezes temos que tentar essa sorte de ser feliz, alegre e contente até que o próximo nos separe ou até que nós também nos vejamos nessa sinuca de vida? Eu olhei da varanda, mudei de janela, mudei de rua, mudei de número, mudei de sorriso, mudei de ideia, mudei de namorado e mudei de amor. A Mel me ensinou a nunca mais dividir nada, nem casa, nem bicho, nem gente, e eu bebi das doses do egoísmo em copos duplos, colhidas em anos; atos! Quantos goles a vida exige de performance, quantas vezes riem dos nossos esforços, do meu verso que se derrama em lágrimas silenciosas, do corpo que se faz platônico, mas vive inteiro. Eu bebo, ainda, cada gole de sentido, cada migalha de silêncio, cada rastro distante, cada aspereza que insiste em ensinar que amar pode ser apenas coexistir na mesma época; eu sou alegre pela existência, pelo crescimento, pela vida, mesmo que nossa vivência seja um monólogo planetário. Eu bebo o que resta no fundo do copo quando a pizza termina e a verdade começa. Eu bebo da consciência de que mudar de janela não muda o horizonte, mas muda o ângulo do olhar. Ainda bebo o gosto agridoce de ter sido e de não ter sido, de ter aprendido que amar também é saber sair da mesa antes que o copo quebre na mão. Eu bebo e sustento o próprio brinde, porque viver é aceitar a dose que vem, por vezes, sem rótulo, sem promessas ou comemorações, ou quando ninguém mais levanta o copo. E, se me perguntam qual é minha bebida favorita, eu digo: depende do copo e da companhia, porque bebida não é o líquido, é a postura diante da vida. Tem gente que bebe pra esquecer, tem quem beba pra lembrar. Uns viram o copo; eu prefiro virar a vida. Bebida favorita desce queimando e sobe clareando. É a que não nos tira do eixo, mas nos mostra onde ele está. Beber da vida não é se embriagar de ilusão, é saber a profundidade da própria sede, porque quem sabe o que procura não se perde no balcão; ao fim da garrafa, bebe do próprio silêncio e aprende com ele. A melhor bebida é a consciência. O resto é só espuma derramada na mesa.

Nota: Sábado. Desfile das competições. “Ensaboa, mãe! Ensaboa pra depois quarar. Ora yê yê o”. Embriaguez aqui nunca foi de álcool. Foi de consciência!



Deixe um comentário