No coração do Rio de Janeiro, o Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) abriga, até outubro de 2025, a exposição “Ancestral” — um mergulho estético, político e espiritual na presença negra através da escultura e da arte contemporânea nas Américas. Esta não é apenas uma mostra de arte. É uma convocação. Um chamado à lembrança. Um reencontro com tudo o que o Brasil insiste em esquecer, mas que vibra nos ossos da história e pulsa nos corações que ainda sabem sentir.
A curadoria de Renato Araújo da Silva traça uma linha clara entre passado, presente e futuro. Ao destacar a ancestralidade como fonte de criatividade e permanência, o curador honra as culturas africanas não como ruína do que foi, mas como força viva que molda o que somos — da linguagem ao corpo, do tambor ao barro, das festas de matriz afro às galerias de arte.
É nesse caminho que encontramos Abdias Nascimento, cujo legado atravessa a exposição como um rio de fogo e palavra. Suas obras — presentes na mostra Ancestral Afro-Américas — não estão ali como relíquias, mas como testemunhas e sementes. Abdias foi mais que artista: foi ponte, griot, militante, fundador do Museu de Arte Negra e do Teatro Experimental do Negro. Sua luta por uma estética negra autônoma é o solo onde essa exposição hoje floresce.
As esculturas expostas não são meros objetos. São corpos que falam. São memórias que resistem. Feitas de ferro, madeira, barro, tecido, cinza, ouro e silêncio. Elas dançam entre o sagrado e o profano, entre o colonial e o quilombola, entre o trauma e a potência. Esculturas que não só ocupam o espaço, mas o reivindicam — transformando o chão branco das galerias em território de axé.
Abdias dizia: “A arte negra é uma arte de resistência, de afirmação, de transformação.” É nesse espírito que “Ancestral” se ergue: como um manifesto sensível, que exige do visitante não apenas o olhar, mas a escuta, o respeito e o retorno. Um retorno a si. Às suas origens. Mesmo para quem não se vê negro — é impossível sair ileso dessa exposição.
Num país que ainda negligencia sua herança africana, visitar “Ancestral” é mais que um programa cultural — é um ato político. É uma oportunidade de enxergar além da estética. É permitir que o corpo sinta, que o pensamento se expanda, que o coração reconheça o que o racismo tenta esconder: que a beleza, a força e a inteligência negras são fundações do Brasil.
Que essa exposição inspire, desconforte, transforme. E que, ao sair do CCBB, cada visitante leve consigo mais do que uma lembrança bonita — leve um compromisso silencioso com a verdade.






















Exposição Ancestral Afro-Américas
📍CCBB Rio de Janeiro
⏳️ Até outubro de 2025
💰 Entrada gratuita
A arte não precisa falar para dizer tudo. Basta estar viva. E negra. E ancestral.



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