
Bom dia, meus raros.
Como vocês estão? Espero que a garoa lá fora não esteja congelando a disposição de quem, como eu, insiste em buscar calor nas palavras.
Pensar em como as coisas se unem, né? Na semana passada, os compromissos da vida me fizeram pular a leitura de Pinchás, logo ela, a parashá que marca o meu nascimento. Mas o tempo, na ancestralidade, não é linear; é uma espiral. Pinchás é aquele zelo ardente, quase violento, que coloca ordem na bagunça e restabelece a aliança da paz, a Brit Shalom. Há quem veja apenas radicalismo, mas, aos olhos da Cabalah, Pinchás estava canalizando uma energia de cura, tentando costurar o distanciamento entre a matéria e o divino. Essa é a força da energia do meu nascimento: uma energia íntegra, um fogo que não aceita a mornidão, a faísca que gera o fôlego necessário para encarar o que for preciso.
Mas avancemos para Matot, a porção desta semana. Afinal, como passar pelas tribulações sem a coragem que nem sempre vem do berço?
Talvez seja justamente aqui que a Torah nos devolva a pergunta que dá nome a esta conversa: qual é o tamanho do nosso chão? Não falo da terra que os pés alcançam, mas do território que a nossa palavra é capaz de alcançar e sustentar. Há quem possua continentes e ainda viva sem chão. Há quem atravesse oceanos e desertos e permaneça inteiro porque sua boca nunca abandonou a sua alma.
Matot começa nos confrontando com o peso do que sai da nossa boca: o mistério dos votos e dos juramentos. O texto nos diz que, se um homem fizer um voto a D-us, ele não deve profanar a sua palavra; e deve fazer exatamente o que prometeu.
Mas você já parou para pensar na gravidade disso? Por que a nossa palavra tem tanto poder no cosmos? Os antigos já nos alertavam que, antes que a palavra saia da boca, ela é tua escrava; depois que sai, tu te tornas escravo dela. Se a boca que abençoa não deve amaldiçoar, é porque a palavra gentil abre portas que a violência mantém fechadas. Como estamos usando essa chave?
O rabi Chaim Vital, grande mestre da Cabalah luriânica, nos lembra que o ser humano é chamado de Medaber, aquele que fala. A nossa fala não é apenas vento; ela é a ferramenta de cocriação que herdamos do Construtor. Quando D-us cria o mundo, Ele o faz dizendo. Logo, a nossa palavra cria realidades tangíveis. Quando prometemos algo e não cumprimos, estamos rasgando o tecido da própria existência, criando um curto-circuito cósmico. Se o código de ética universal é a própria vida, como podemos nos dar ao luxo de poluir a atmosfera com promessas vazias? Será que temos noção do quanto aprisionamos nossa própria alma quando nossa boca diz sim, mas a nossa alma queria dizer não?
E o ceticismo que nos habita sorri com o canto da boca, porque sabe que o ser humano adora criar narrativas para justificar seus deslizes cotidianos. Mas a ancestralidade não se deixa enganar por floreios intelectuais. Onde começa, afinal, a fidelidade à nossa própria verdade?
É justamente aqui que Matot encontra as águas densas dos Salmos. Porque toda palavra verdadeira precisa descobrir se continua verdadeira quando o chão desaparece. A palavra só revela sua força quando a terra firme cede sob os pés. E talvez seja exatamente por isso que o exílio da Babilônia tenha tanto a nos ensinar. Afinal, qual é o tamanho do nosso chão quando tudo aquilo que nos sustentava nos é arrancado?
No Salmo 137, diz:
“À margem dos rios da Babilônia, nos assentamos e choramos, lembrando-nos de Sião.”
É um discurso melancólico e profundamente poético. Como cantar as canções do Criador em território estranho? Como manter a palavra em brasa viva e o pacto com a nossa essência quando fomos arrancados de nós mesmos?
O salmista chora porque o exílio é, antes de tudo, o esquecimento de quem somos. Quando os babilônios pedem uma canção, eles querem o folclore, a superfície, o entretenimento exótico. Mas a espiritualidade real não se vende por aplausos superficiais.
⚒️ Se a minha cabeça não me vende, nenhum mercado compra a minha alma.
Exilar-se é falar uma língua que não é a sua. Quantas vezes, no cotidiano, nós nos exilamos da nossa própria verdade apenas para caber no camarote dos outros? Se eu me esquecer de ti, se eu me esquecer do meu centro, da minha centelha divina, que minha mão direita perca a sua destreza. Que a minha língua cole no céu da boca se eu não fizer da integridade e do discernimento a minha maior alegria.
Mas a beleza da existência é que a lástima nunca é o ponto final.
O Salmo 138 nos puxa de volta, transbordando uma força renovada:
“De todo o meu coração Te darei graças… Se caminho em meio à angústia, Tu me preservas a vida.”
Olha a resposta… O Universo não tem preferidos. Ele não distribui bênçãos por puro capricho; a Sua presença é a própria costura da vida que nos sustenta quando decidimos andar em retidão e harmonia. O seu compromisso/pacto/missão irá exigir tudo de você, até mesmo que você fale de cura enquanto sangra. É assim que o salmista descobre que, mesmo no ceticismo, a estrutura do Universo responde a invocação pura e sincera.
Matot também nos fala sobre os líderes das tribos. O próprio nome da porção significa “varas”, “cajados” ou “bastões”, símbolos de autoridade, responsabilidade e sustentação. Um cajado não nasce cajado; antes foi ramo, conheceu a seiva, enfrentou os ventos, resistiu às estações e, somente depois de amadurecer, tornou-se apoio nas mãos de quem conduz. Assim também acontece com aqueles que sustentam uma comunidade: primeiro aprendem a permanecer de pé com os mais velhos para, então, servirem de amparo aos que caminham.
O cajado já não floresce, mas sustenta quem caminha. A árvore jovem se curva ao vento; a madeira antiga conhece o peso das tempestades. Há galhos que dão sombra e há troncos que guardam a memória da floresta.
O poeta e pensador Abraham Joshua Heschel escreveu que o oposto do bem não é o mal, mas a indiferença. E a indiferença é a morte cerebral da palavra. Quando olhamos para a transição de Pinchás, com sua paixão que corta, para Matot, com a responsabilidade da palavra dita, percebemos que a nossa ancestralidade nos convida a assumir as rédeas do nosso próprio destino. Porque prosperidade não é o acúmulo de ouro; prosperidade é a capacidade de falar e ver a realidade se alinhar com a justiça na própria vida. Sabedoria não é decorar regras de um livro antigo ou saber todos os rezos; é compreender que cada letra, cada som e cada toque do tambor pulsam nas nossas veias.
Que nesta semana possamos cuidar da nossa fala, resgatar as belas canções e os rezos que deixamos esquecidos nos salgueiros do exílio e caminhar com a certeza de que a vida, em sua infinita e poética inteligência, está sempre pronta para nos devolver o nosso chão.
E talvez o chão nunca tenha sido apenas um lugar. Talvez ele seja a extensão da verdade que conseguimos habitar. Há quem habite palácios e continue sem chão. Há quem caminhe pelo solo árido e descubra que sempre esteve em casa. O tamanho do nosso chão não é medido pelos quilômetros que percorremos, mas pela fidelidade e lealdade entre aquilo que a nossa alma conhece e aquilo que a nossa boca pronuncia.










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