Shoftim: As portas que guardamos



Da terra de Matot, onde medimos a largura do chão que nossos pés pisam, saltamos, sem escalas, para a soleira de Shoftim.

Para quem perdeu as pegadas pelo caminho e não percorreu as alamedas que vieram em seguida, Mas’ei, Devarim, Va’etchanan, Eikev e Re’eh, às vezes acontece: perdemos capítulos inteiros e, quando voltamos ao livro, precisamos descobrir em que ponto da estrada deixamos a personagem. Mas vale lembrar: estamos chegando ao limite, justamente onde um chão termina e outro começa.

Mas’ei é a memória das paradas, onde aprendemos que caminhar também é construir nosso próprio chão. Devarim revisita a memória coletiva repassada ao redor do fogo, como quem olha para trás antes de entregar a casa aos que virão. Não se trata apenas de uma repetição de leis, mas do sopro da ancestralidade dizendo: “Olha de onde você veio, não se perca do que você é”.

Devarim é um teste de sanidade de uma comunidade prestes a trocar a fluidez do deserto pela solidez e também pelas armadilhas que a terra herdada oferece. Va’etchanan nos coloca diante da palavra e da memória. Eikev alerta para o perigo de confundir prosperidade com mérito, ou abundância com superioridade. Re’eh expõe a escolha nua: o que construímos e o que destruímos.

E assim, com o chão revestido, desaguamos em Shoftim. O chão ganhou instruções; agora precisa de direção, precisa de clareza.

Tempo médio de leitura: 20 minutos.

“Juízes e guardiões colocarás em todas as tuas portas.”

Mas que portas são essas? Se D-us, o Construtor do Universo, não habita edifícios de pedra e não escolhe favoritos, por que precisaríamos de guardiões nas portas da cidade? Não seriam essas portas, na verdade, os nossos próprios sentidos? O olhar que julga antes de ver, o ouvido que acolhe o ruído em vez da música, a boca que profere sentenças em vez de construir pontes?

Uma porta não serve apenas para permitir ou impedir a entrada. Ela também determina o que pode ou não sair. Talvez seja essa a primeira lição escondida na imagem das portas de Shoftim. Guardamos as portas não apenas para proteger aquilo que está dentro, mas para assumir responsabilidade por aquilo que permitimos que atravesse o limite.

Toda casa possui uma soleira. É um objeto pequeno, quase esquecido, mas é justamente ali que o dentro encontra o fora. A soleira não pertence completamente à casa nem à rua. É uma fronteira estreita onde precisamos decidir: entra ou não entra? Fica ou parte? É acolhido ou barrado.

Nota sobre a soleira: “Soleira” não deve ser compreendida aqui apenas como a peça de pedra, madeira ou outro material que, na arquitetura contemporânea, costuma ser colocada na parte inferior de uma porta. Na Bíblia hebraica, diferentes palavras podem ser traduzidas, conforme o contexto, como soleira, limiar, batente ou entrada. Entre elas está miphtan (מִפְתָּן), termo que aparece em passagens relacionadas à entrada de casas e espaços sagrados. A imagem da soleira também possui importância em textos proféticos. Em Ezequiel, por exemplo, ela aparece associada à Casa e à manifestação da presença divina. Em Ezequiel 47:1, águas saem de debaixo da soleira da Casa e seguem em direção ao oriente. Portanto, a soleira, neste estudo, não é apresentada como um objeto específico da parashá Shoftim, nem como uma definição literal das “portas” mencionadas na Torá. Ela é uma imagem bíblica que amplia a reflexão sobre entrada, limite, pertencimento, proteção e passagem entre um espaço e outro. É a partir dessa linguagem que o texto aproxima as portas de Shoftim daquilo que guardamos dentro de nós.

Talvez a justiça more nesse lugar.

A parashá nos lança o imperativo célebre: Tzedek, tzedek tirdof, “Justiça, justiça perseguirás” (Devarim 16:20). Mas por que duas vezes? Por que não simplesmente “justiça perseguirás”?

O cabalista Chaim ibn Attar ponderava que a justiça nunca é um ponto de chegada, mas uma busca contínua, uma postura. A repetição é também uma lembrança de que os meios devem ser tão puros quanto os fins.
Em que momento a defesa da nossa “verdade” deixa de ser busca por justiça e passa a ser apenas defesa de nós mesmos?

Os antigos não colocaram essa repetição à porta do texto como um simples enfeite. Há nela uma espécie de guardião: justiça sobre justiça, como se uma palavra vigiasse a outra para lembrar que até aquilo que chamamos de justo precisa ser examinado antes de entrar.

E é aqui que o ceticismo precisa cutucar a nossa própria pretensão: será que queremos realmente justiça ou queremos apenas que a nossa versão dos fatos seja considerada justa?

Existe diferença entre buscar o equilíbrio e procurar uma sentença que confirme aquilo que já decidimos dentro de nós. Será que somos capazes de continuar chamando algo de justo quando a decisão nos desfavorece? O nosso senso de ética sobrevive quando o culpado é alguém que amamos? E quando o culpado somos nós?

Talvez por isso a soleira seja uma imagem tão poderosa: “Eis que águas saíam de debaixo da soleira da Casa, para o oriente…” (Ezequiel 47:1). Porque a justiça não chega à soleira quando alguém finalmente recebe a punição que imaginávamos merecer. A justiça chega à soleira quando somos capazes de interromper o julgamento e perguntar o que, de fato, estamos autorizando a entrar em nossa casa interior.

Entra a informação ou entra a fofoca? Entra a verdade ou entra apenas a versão que nos favorece? Entra a responsabilidade ou entra a vingança disfarçada de justiça? Entra o outro como pessoa ou apenas como personagem da história que construímos sobre ele? E, talvez mais difícil ainda: quando alguma coisa sai de nós, sai a palavra que esclarece ou a palavra que fere?

É nesse sentido que as portas que guardamos são também as portas que nos guardam.

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