Feliz. Eu tenho um filhote de Pèrègún.

Há um ano, eu e o Pèrègún que minha Mãe me deu passamos por algumas violências. Ele foi colocado naquele sol escaldante do verão e queimou todas as suas belas folhas. Tive que podar para tentar fazê-lo sobreviver. Alguns disseram que, se cortasse o tronco, ele cresceria novamente. Não tive coragem. Não quis usar a lâmina em ti. Dói vê-lo sem suas folhas exuberantes. Um rei rico e formoso, despido na minha porteira. Mas Pèrègún disse que nós aguentávamos. E me fez lembrar de um velho ensinamento… Se Pèrègún tem o poder de chamar os espíritos do Orum para o Aiyé, ele também tem o poder de chamar a vida, a sorte, a saúde e a riqueza.

Pèrègún, que sempre me medicou, foi buscar a nossa sorte.

Pèrègún continuou crescendo para o alto, sem suas vestes, apenas exibindo o tronco e sua coroa, que não tive coragem de tirar.

Toda violência tem seu mal guardado no corpo… Uma palavra, um maldizer, uma lembrança. Nem toda violência é física, mas todas elas deixam cicatrizes em nossos corpos sagrados. Coexistir com elas é uma tarefa árdua. É um sacrilégio que a alma nem sempre está preparada para continuar. Pèrègún seguiu forte… Sombra, sede, poeira, sol, mudanças de lugares, faltas de nutrientes… chuvas. Mas Pèrègún é forte e sabe desbravar suas raízes.

Pèrègún, vive! Na mata, na caça, à beira do rio ou do precipício.

E agora, há um filhote. Um novo Pèrègún desponta, pequeno, tenro, carregando a promessa de outras folhas. A vida não se contentou em apenas devolver o que foi perdido; tratou de anunciar o que ainda está por vir. Porque, apesar de tudo o que foi ferido, a vida não se ocupou somente dos reparos. Não se limitou a recompor o que um dia existiu. Fez nascer o que ainda não havia. E talvez seja essa uma das suas maiores generosidades: não nos oferecer apenas a possibilidade de voltar a ser o que éramos, mas permitir que sejamos também aquilo que ainda não conhecemos em nós.

E a vida ainda têm outros frutos para dar…

Há também uma muda de fava nascendo aos seus pés. Pequena, abrindo suas primeiras folhas sobre a mesma terra. Duas vidas novas, cada uma com sua natureza, dividindo o mesmo chão. A vida tem dessas delicadezas: às vezes, enquanto esperamos uma resposta, ela nos oferece mais de um nascimento.

Feliz. Eu tenho um filhote de Pèrègún.

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