
Da minha janela, vejo as capivaras na lagoa.
Elas chegam como quem não deve nada a ninguém. Nem ao banco, nem ao chefe, nem às expectativas alheias. Não pedem licença porque quem vive em paz não precisa. Elas apenas chegam, se acomodam e fazem o que vieram fazer: existir.
Tenho pensado nisso nesses dias de começo de ciclo.
Acabamos de passar por Rosh Hashaná, aquele momento bonito e um pouco incômodo em que a gente olha para a própria vida e percebe que o calendário mudou, mas nós continuamos sendo nós mesmos. Ainda vem Yom Kipur, ainda tem o acerto das contas que ninguém quer fazer, inclusive aquelas que não aparecem no aplicativo do banco. E, de quebra, logo chegam as crianças, os doces, Cosme, Damião, Dou, Alabá, Crispim, Crispiniano, Talabi e toda essa bagunça sagrada que a infância ainda sabe fazer.
Talvez um ciclo novo não precise começar com grandes resoluções.
Talvez possa começar com sete doces brancos.
Sete pequenos pedaços de açúcar para adoçar o paladar e, quem sabe, convencer a alma de que a vida não precisa ser administrada o tempo inteiro como uma empresa em recuperação judicial.
E não é só para comer.
Para ofertar também.
Sete doces brancos para as crianças, para repartir aquilo que recebemos. Porque prosperidade também é isso: não guardar para si.
Também podemos pegar uma galinha ou um galo para fazer a caparot. Não porque a vida seja simples, nem porque um ritual resolva aquilo que a gente ainda precisa resolver com as próprias mãos, mas porque existem saberes antigos que nos lembram de alguma coisa que a pressa moderna quase apagou: nós também somos feitos de tradições, de histórias, de símbolos, repetição, memória, pergunta e tentativa.
E talvez seja justamente aí que a capivara entre na conversa.
No xamanismo, dizem que certos animais vêm nos ensinar lições. Uns aparecem para despertar a coragem, outros para inspirar a caçada. A capivara, não. A capivara parece ter olhado para tudo isso e decidido que não participaria da reunião.
Ela vem ensinar a não entrar na briga.
Ela é o oposto do que a sociedade espera de nós. Não performa produtividade. Não compete para ver quem chega primeiro. Não se inscreve numa corrida de 10 km ou numa competição de CrossFit para provar nada. Não precisa transformar cada amanhecer em uma oportunidade de superação pessoal. Ela só existe. E vive.
E, por algum motivo, essa simples arte parece inatingível para nós, humanos correndo de boleto em boleto, de opinião em opinião, de prazo em prazo, tentando transformar até o descanso em conteúdo.
Não é santa, não é mártir, não está tentando transformar a própria existência em desempenho. Ela só não parece disposta a gastar energia com o que não precisa.
E isso, por si só, é revolucionário.
Num mundo que lucra com a nossa raiva, com o nosso medo e com a nossa sensação permanente de inadequação, manter-se calmo é quase um ato de rebeldia espiritual.
No xamanismo, seu espírito fala de harmonia com os diferentes reinos: mineral, vegetal, animal. Ela transita entre espécies sem precisar convencer ninguém de que merece estar ali. Não chega anunciando currículo, propósito, missão de vida ou cinco passos para desbloquear o potencial.
Ela chega.
Senta.
Come.
Entra na água.
E aparentemente isso basta.
É como se carregasse um campo energético dizendo: “Não estou contra você. Não estou a favor de você. Estou a favor da vida.”
E aí todos relaxam.
Até os predadores.
Talvez por isso sejam fofas.
A fofura é uma das faces acessíveis da paz. E talvez façam tanto sucesso nas redes porque, lá no fundo, todo mundo queira um pouco daquela vida sem agenda, sem alarme, sem disputa e sem a necessidade constrangedora de parecer interessante o tempo inteiro.
Mas nós somos humanos.
Então pegamos a capivara, transformamos em meme, filtro, pelúcia, caneca, camiseta e provavelmente algum curso de produtividade chamado “Método Capivara: como alcançar seus objetivos sem perder a serenidade”.
A gente realmente não consegue deixar nada em paz.
Socialmente, a capivara é o oposto do inflamado.
Não grita para provar ponto. Não entra em discussão de grupo de família. Não faz textão às duas da manhã porque alguém curtiu a opinião errada. Não precisa saber quem está ganhando. Não se importa se outra capivara tem mais seguidores.
Ela representa uma espécie de equilíbrio no caos. Uma presença que acalma a água só por estar ali.
E talvez seja esse o tipo de motivação que eu consigo oferecer neste começo de ciclo.
Nenhuma.
Ou quase nenhuma.
Não tenho sete passos para você se tornar uma pessoa melhor. Não tenho uma lista de hábitos transformadores. Não tenho uma frase dizendo que você precisa acreditar nos seus sonhos enquanto o universo conspira a seu favor.
Às vezes o universo não está conspirando coisa nenhuma.
Às vezes ele está apenas existindo.
E nós também.
Então, nesta semana, talvez o quadro motivacional seja esse: coma um doce. Faça seu ritual. Acenda sua vela. Diga suas preces. Peça perdão onde precisar. Perdoe o que conseguir. Deixe algumas coisas sem resposta. Dê atenção às crianças. Observe as crianças. Elas ainda sabem uma coisa que a vida adulta costuma roubar: brincar sem precisar justificar a utilidade da brincadeira.
E, se aparecer uma capivara no seu quintal, por favor, não transforme imediatamente o acontecimento em uma oportunidade de engajamento.
Não corra para postar.
Não tente domesticá-la.
Não pergunte se ela aceita Pix.
Sente perto, se for seguro.
Respire.
Observe.
Talvez você descubra que começar um ciclo novo não significa virar uma pessoa completamente diferente.
Talvez signifique apenas diminuir um pouco o barulho da pessoa que você já é.
E, se nada disso funcionar, coma o sétimo doce.
Sete doces brancos. Sete para ofertar às crianças. Sete para lembrar que doçura também se reparte.
Depois me diga se o mundo não ficou um pouco menos indigesto.
Boa semana. Inté.



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