Perdi o tesão no meio do ato

Perdi o tesão no meio do ato. A tensão é muscular, mas a pele parece rasgar o osso. O nojo é biliar, mas parece transbordar pelas frestas do esboço. A vontade é mental, mas parece agonizar no espiritual. Talvez uma última mentira que invento ao acordar: ela precisa de mim! Essa é a fórmula que me mantém com os olhos abertos mesmo nos dias em que quero apenas adormecer. Dormir é um tipo de fuga. Ela também já sabe. Estamos presas no que diz ser a vida cotidiana.

A Diana ética daqui não é como a da Disney. Não há príncipe no final. Nem sei se haverá uma história alegre ou feliz. Mas sapos há, e o fim sempre há de vir.

Brinquedo de Pedalar


Eu perdi o prazer no meio de uma poesia. Era um verso caquético, senil, febril, enroscado no cobertor pandêmico. Nos venderam a ideia de um dilúvio universal. De um surto galáctico. De uma dose que nos roubaria o cérebro. Mas ainda estou consciente. Tomei várias doses dessa cachaça vendida no postinho da boa saúde. Eu morri por dias. Eu sobrevivi por meses. Anos enterrada sob um corpo estático.

Um ato concebido agora é uma pintura frustrada no próprio corpo. A tinta escorre antes de encontrar contorno. A pele protege os órgãos, mas não impede que a carne sinta o apodrecimento ou a renovação. Talvez seja isso o que o corpo faz enquanto insistimos em chamá-lo de inteiro: apodrece, renova, perde matéria, inventa outra. E mesmo assim continua sendo tela. Mesmo assim continuamos pintando.

Mas agora eu perdi o tesão no corpo da palavra. Perdi as linhas corporais e tensionais. Resta um apego exausto, quase moribundo, sustentado pela cegueira.

Eu amei, amén. Mas perdi o saborear do amor. Ele aconteceu no meio da rotina que não tivemos. Você sobreviveu aos sonhos que lhe foram apresentados. Eu acreditei que você tentou resolver tudo no amor. E descobriu o amor. O possível. O verdadeiro.

Mas eu fiquei ali, inerte e desperta, olhando a velocidade levar meus versos, arrancar cada palavra de mim, afogar cada estrofe que escrevi para mim.

É um esmorecer.

Perdi o tesão no meio do ato. O corpo continuou. A poesia também. Só o desejo teve a decência de ir embora. E, desde então, tudo continua acontecendo, como se o desejo não fosse parte necessária de estarmos vivos.

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