
Era uma tarde, de uma noite clássica; o som da campainha entrou sala adentro. Era o sorriso invadindo o quarto, era o peru da festa passada.
Não posso cerrar a porta, dar fim a este caso. É um trabalho, um estudo de caso. Não podemos adiar a noite.
Vinho quente, arroz passado, peixe, batatas? — Frita, eu não como, amassa!
Não engulo um só gole d’água, não experimento nenhum chocolate, e ele é francês.
Não escuto a chamada do telefone, não ligo a TV, também não ligo o aquecedor. Tremo de frio, vestida num vestido barato de 25 de março, e nem é março, é agosto. Faz frio por aqui.
Estou intacta neste sofá. Nunca reparei: esse sofá é uma cama, é um sofá, uma prisão no meio da sala de estar. E eu não estou aqui, não sou daqui, sou do sertão e estou aqui pela comida. E eu não gosto da comida, não gosto das batatas. Não comi; serão comidas. Um pensamento que não passa.
Não posso falar de sentimentos, mas eles estão ali, no tilintar dos talheres.
Não posso dormir, não posso me despir, não posso sentir. — Não sou daqui!



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