
“Uma vez já estive onde você está e o que eu sou você também será.” – Masaccio
Escrevi… e apagarei as estrofes, ainda que estejam em todas as notas que descrevo. Mesmo quando não rabisco, quando não durmo, mesmo quando deleto as palavras, os versos ainda ficam encarando-me como quem diz: escreve, usá-nos.
E adormeço habitando cada centímetro das letras, como Sal, que continua sentado na beira da cama, olhando-me pestanejar, enquanto sonho a escrita das palavras que ainda não existem.
Mas há, e as escrevo sob remelas de um sono leve e cheio, sob um sonho aromatizado com o sussurro da dona do pôr do sol do céu rosa.
Os versos desenhando versos sobre a nuvem branca, macia e leve.
Não. Não é tão leve assim, é romantismo platônico, sobre observâncias singelas, distantes, caladas (não há o que dizer…), quase brisa no ouvido, quase vento nos lábios, quase gozo do perfume.
É romantismo barato. Ébrio. Invólucro. Sóbrio… Ilibado.
Sou e estou sã, e muito consciente de onde deposito inspirações, desejos, sentidos, significâncias. Ciente de onde anulo sem intenção, de onde adormeço e levanto muros.
De quem alimenta-me e degusta cafés mudos e silenciosos.
Consciente de onde nunca reguei uma gota. Nenhuma. De nenhuma cor. De nenhuma espécie.
Que cor seria sua gota?
Sã e consciente de onde mergulhar e da chuva que não deve molhar nem as mãos, nem os pés, tão pouco os olhos.
Posso molhar seus lábios? Um brado silencioso.
Há engrenagem… No relógio, na bússola, na hélice. Na vida e no corpo. Na maré e nos olhos. No arco de Iris e até nos cosmos…
Há beleza na existência. Harmoniosa sintonia. Sincronia. Sinfonia.
Livres… verdadeiros e zelosos, como bem ensina a leoa dos céus… as nuvens choram.
O céu clareou… me faz passarinho…
Bom dia, Dia!
Nota: Mas quem analisa só enxerga devaneios.
Inspiração, novembro 2020.



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