
Domingo, esse dândi ensolarado de meia furada e croissant requentado, desfila pela semana como se não soubesse que é o dia mais hipócrita do calendário. Um paspalho engravatado de preguiça, com ares de conde em férias, fingindo neutralidade entre o caos da sexta e o martírio da segunda.
Ah, o domingo. Esse aristocrata falido que finge ler Tolstói no café da manhã, quando na verdade relê o encarte do supermercado para saber se a alcatra está menos inflacionada que a paciência nacional. O mesmo que publica fotos do pôr do sol com legendas em francês: “La vie est belle”, ignorando solenemente o boleto vencido que repousa, como uma ossada, sob o porta-retrato da família feliz.
Não se engane: o domingo é o desfile da melancolia de classe média. É o dia em que os proletários tentam parecer descansados e os abastados, despojados. A plebe limpa o tênis branco para ir à feira e a elite vai de rasteirinha ao antiquário vintage, que, no fundo, fede a mofo com pretensão.
Os homens de bem fazem churrasco, sobre a carne, um sal grosso e sobre os olhos, uma névoa de recalque. As mulheres iluminadas publicam stories de autocuidado com a hashtag #Gratidão, mas estão, de fato, exauridas da própria tentativa de serem serenas. E as crianças… ah, as crianças. Essas pequenas anarquistas em fraldas, com olhos de Gremlin e alma de punk suburbano, berram por sorvete às 9h da manhã enquanto os pais negociam o silêncio com biscoitos e ameaças veladas.
Domingo é isso: o luxo da apatia travestido de liturgia. É a missa da hipocrisia semanal, onde todos rezam a oração do “vou mudar de vida amanhã” e pagam dízimos em forma de promessas vazias.
Mas que ninguém ouse ofender o domingo. É o único dia em que a culpa parece uma dama educada, vem com luvas, fala baixo e oferece chá. Mesmo quando ela morde, é com os dentes de porcelana da conveniência.
E assim seguimos, recolhidos em almofadas de sarcasmo, entre almanaques de autoajuda e séries sobre a elite decadente. Esperando a segunda-feira nos devorar com mais compostura, talvez, do que merecemos.



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