
Antes de mais nada, confesso: senti por não ter trazido o texto no domingo anterior e tampouco o café na segunda-feira, como é costume. A vida, com seus entreveros e demandas, às vezes nos atrasa em campos preciosos. Peço desculpa pela ausência e que esta leitura traga um sopro de ânimo e renovação.
Nesta semana, que se encerra e recomeça sob a lua nova de 21 de Cheshvan, somos convidados a refletir sobre os ciclos que se fecham e se abrem dentro de nós. Recentemente, celebramos o Dia dos Professores e ainda ressoa o convite à gratidão por quem nos orienta, ensina e inspira. Se homenageamos aqueles que semeiam saber nos corações humanos, que também possamos reverenciar os guias da alma: os textos sagrados, os ancestrais de sabedoria, e as vozes interiores que despertam o espírito. Que todo suposto atraso se revele aprendizado e bênção.
A Parashat Vezot Haberachá — “E esta é a bênção” (Devarim 33:1–34:12) — nos deixou um rastro de humildade e continuidade. Foi a despedida de Moisés, o selo final de sua missão, o gesto de entregar ao povo a herança espiritual antes de partir. No ciclo anual da Torá, ela encerrou o livro de Devarim e preparou o terreno para o renascimento em Simchat Torá, a celebração da alegria do estudo e do recomeço. O fim e o início se entrelaçam como o pôr do sol e a aurora.
Na vibração cabalística, Vezot Haberachá representa o poder de concluir com consciência e recomeçar com luz. É o ponto onde o humano toca o divino e o tempo se faz espiral. Moisés, ao abençoar cada tribo, desperta em nós a pergunta: qual força interior precisa hoje ser reconhecida, curada ou fortalecida?
Subindo ao Monte Nebo, ele contempla a Terra Prometida e encerra sua jornada aos 120 anos. O texto afirma: “Nunca mais surgiu em Israel profeta como Moisés.” A tradição entende que, a partir daí, a profecia se expande do indivíduo ao coletivo. A liderança deixa de ser figura e se torna consciência. O legado de Moisés é a passagem da palavra para a escuta, do condutor para o caminho.
O Midrash ensina que Moisés, mesmo conhecendo D-us “face a face”, permaneceu o mais humilde entre os homens. A humildade é a chave da bênção: o canal que se esvazia pode receber a plenitude da luz. Por isso, sua partida não é ausência, é continuidade.
Ao concluir Vezot Haberachá, imediatamente se inicia Bereshit — “No princípio…” (Gênesis 1:1–6:8). O encerramento se transforma em nascimento. O Zohar chama este ponto de “fechamento místico da Torá”, quando o silêncio contém revelação. O Talmud (Yevamot 49b) lembra que o verdadeiro fim da profecia não é o desaparecimento da voz, mas sua transmissão. A sabedoria não morre; apenas muda de forma.
A Parashá Bereshit inaugura o novo ciclo com um dos textos mais profundos. Os rabinos ensinam que todos os segredos do universo estão contidos nos primeiros versículos de Gênesis, onde literalidade e simbolismo se unem em uma narrativa que dialoga com a ciência, a história e o espírito. Bereshit bara Elohim et hashamayim ve’et ha’aretz — “No princípio criou D-us os céus e a terra.”
Aqui começa tudo: a luz e as trevas, a ordem e o caos, o tempo e o repouso, o nascimento do sentido. É o retorno ao princípio para lembrar que criação e recriação são movimentos eternos da alma.
Nesta travessia entre o fim e o início, os Salmos 22 a 27 compõem uma escada espiritual que expressam a mesma cadência da criação: introspecção, confiança e luz.
O Salmo 22 é o grito da alma: “D-us meu, D-us meu, por que me desamparaste?” — o instante em que a fé é provada.
O Salmo 23 responde com consolo: “Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal algum, porque Tu estás comigo.” É o descanso após o choro, a confiança após a perda.
O Salmo 24 abre os portais da nova fase: “Levantai, ó portas, as vossas cabeças, e entrará o Rei da Glória.” — o recomeço luminoso, a alma que se abre à presença divina.
No Salmo 25, Davi eleva sua alma e pede discernimento: “Mostra-me os Teus caminhos, ó D-us; ensina-me as Tuas veredas.” É o anseio do aprendiz que deseja compreender o sentido das origens.
O Salmo 26 fala da pureza de intenção — “Lavo as mãos na inocência e, assim, contorno o Teu altar” — lembrando que criar requer integridade e verdade.
Já o Salmo 27 culmina na afirmação luminosa: “O Eterno é a minha luz e a minha salvação; de quem terei medo?” — o despertar da fé depois da travessia.
Esses cânticos são degraus — da dor à confiança, da entrega à sabedoria, da dúvida à criação.
Recentemente, o mundo assistiu a um gesto de humanidade em meio às feridas da guerra: uma trégua em Israel e Gaza, com a devolução de corpos e o alívio temporário das armas. Delicado e esperançoso: em meio ao cessar-fogo mediado entre as partes, estão ocorrendo trocas e devoluções de corpos e libertações parciais que, ainda que frágeis e incompletas, abrem fissuras para a possibilidade de paz e de reconhecimento da dor humana compartilhada. A entrega de corpos e a suspensão temporária das hostilidades trazem à tona a urgência de buscar soluções que preservem vidas e restituam dignidade às famílias enlutadas. Celebramos qualquer passo que favoreça a paz e o cuidado por todas as pessoas afetadas, incluindo as comunidades muçulmanas que igualmente desejam segurança, memória e justiça. Que o recomeço anunciado pela Torá encontre eco no desejo coletivo por sociedades mais saudáveis e livres.
Também trago uma lembrança pessoal e suave. Minha avó Dagmar Seabra, se viva, completaria aniversário no último dia 17 de outubro. Evoco sua memória com amor saudoso e honroso. Que seu nome seja bênção entre os que me antecederam, e que sua doçura continue ensinando em silêncio o que o tempo não apaga. Que a lembrança dos que nos formaram no afeto e na prática seja toque de presença neste encerramento de ciclo.
E por falar em cuidado, deixo um alerta prático e necessário: nesta semana, houve tentativa de golpe usando meu nome, com um número diferente pedindo contribuições financeiras.
Por favor, verifiquem sempre a procedência das mensagens e não enviem dinheiro sem confirmação direta pelo número que vocês já conhecem. Não troquei de número. Denunciem contatos suspeitos e protejam suas finanças e suas emoções. Cuidar da segurança é também um ato espiritual, proteger o que é justo, verdadeiro e digno.
A Parashat Bereshit é o reinício, o sopro que reacende o mundo. Que possamos entrar neste novo ciclo com a leveza dos que sabem que criar também é orar. Que o estudo, a prática e a vida cotidiana se tornem aulas contínuas de despertar.
É o tempo de viver o aprendizado, e não apenas celebrá-lo.
Se Tishrei é o cume da montanha, Cheshvan é o vale fértil onde as sementes da consciência brotam em gestos simples e reais.
Que esta leitura seja como a primeira luz da manhã: discreta, mas reveladora.
Que desperte em nós o desejo de aprender, ensinar, curar e seguir.
Um domingo abençoado, e uma semana de recomeços.



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