
António, teu nome chega devagar, como cadeira arrastando no terreiro antigo da memória.
Há santos que vivem nos altares.
Tu escolheste as portas.
As entradas gastas, os corredores estreitos, as esquinas onde o povo baixa a cabeça para continuar vivendo.
Te encontrei numa manhã de calor excessivo, entre passos cansados no Largo, quando o Centro inteiro parecia mastigar ferrugem e fumaça.
Havia um homem dormindo perto da igreja.
Um copo vazio ao lado. Um paletó dobrado como quem ainda guardava dignidade nos ombros.
E naquele instante, não foi o ouro do altar que brilhou.
Foi a sombra da árvore.
António, tu tens o silêncio dos que sabem escutar os mortos sem medo.
Teu milagre nunca foi barulhento.
Ele acontece no café repartido, na mão enrugada que aconselha baixo, na fumaça subindo lenta como reza velha, na gargalhada misteriosa que despista tristeza na boca da noite.
Há em ti alguma coisa das estradas.
Alguma coisa de quem conhece os caminhos antes mesmo do chão.
Por isso o povo te chama diferente.
Não como os homens dos livros.
Mas como quem chama alguém íntimo, alguém que entende os cadeados da vida, as voltas do destino, as conversas feitas na beira da calçada enquanto o mundo dorme.
Os antigos falavam contigo baixinho.
Acendiam vela, passavam o café, abriam as janelas antes do sol nascer.
Depois permaneciam em silêncio, como quem escuta conselho vindo do vento.
Na infância, eu não compreendia.
Hoje entendo: existem presenças que chegam mansas.
Antigas sabedorias vestidas de folha e fumaça.
Gente de fala lenta, olhar profundo e mãos acostumadas a curar.
António de Categeró, santo dos esquecidos, dos retirados, dos que aprenderam a sobreviver carregando mundos invisíveis.
Se algum dia eu me perder de mim, me deixa descansar um instante na tua sombra.
Depois, com paciência de árvore antiga, me ensina outra vez o segredo das encruzilhadas, das chaves, e do caminho de volta.



Beautiful writing.
Obrigada 🌷🌷