
Esse ano não tem carta. Tem algum doce de lástima e cansaço. Vou escrever é para o António, talvez ao Marujo. Talvez eu vá à feira comprar camarões vermelhos, farinha de milho, cebola roxa e alguma flor para colocar na mesa. Talvez compre um ramo de alecrim para enfeitar o copo da vovó. Os anos ensinam coisas boas e ruins e escondem outras que agora doem como um cravo fincado ao corpo. Continuo sem saber cozinhar, continuo sem fazer origamis e continuo sem saber como alguém tirará meus brincos, mas isso já não parece tão importante. A manhã amanheceu e eu nem senti o gosto do dia; dormi enrolada, quente, num cobertor frio. Nos sonhos havia cheiro de mercado: peixe fresco, frutas maduras e jornal velho. Havia um homem vendendo frutas numa caixa de madeira e uma senhora discutindo o lugar das lixeiras. A vida tem dessas excentricidades. Mas acordei e não fui à feira. A feira deste bairro, que cala na alvorada e grita à tarde por causa do futebol, só acontece aos sábados. E hoje é sexta-feira. Dia dos Namorados. Miado de gato. Vizinhos. Havia apenas a tarde e dois cachorros distraídos atravessando a rua. Observei-os por mais tempo do que deveria. Existe um tipo de luto que se acomoda dentro do corpo e, numa manhã qualquer, um gesto qualquer faz a gente recordar das patas correndo, dos pelos que nos fazem espirrar, do som das unhas riscando o piso, daquela alegria desproporcional que só os animais possuem quando alguém retorna. Elas partiram, Namorado. Acho que não te contei. A memória tem suas próprias coleiras. Observei os cachorros até desaparecerem na esquina. Depois continuei bebendo meu café com uma suave tristeza. O último ciclo foi ferido, mas sobrevivemos. Nem tudo cabe nos calendários ou nas palavras. Há lugares que visitamos antes de chegar. Há seres que encontramos antes do encontro. Há mesas onde nos sentamos sem nunca estarmos presentes. E há conversas que atravessam vidas inteiras procurando um corpo onde possam caber. Espero que teu corpo caiba nessa casa e que teu coração encontre afago onde dorme. Ultimamente tenho planejado outros voos: cidades coloridas, antigas, gastas pelo tempo e polidas pelas histórias; lugares onde as janelas contam segredos, onde os mercados amanhecem cheirando a especiarias e algum tipo de maresia, onde os sinos marcam as horas. Oh, António, eu ouvi teu sino. Amanhã estarei em teu quintal. Recebe-nos bem. Tenho pensado em ruas de pedra onde tanto chorei, em antiquários onde deixei objetos inúteis, em museus que não piso mais, em estações de trem nas quais não ouso entrar. Mas ainda podemos sentar num café qualquer e observar desconhecidos vivendo suas vidas, as palomas cruzando a praça e os velhos jogando cartas. Talvez o coração tenha mudado de vista, fechado a janela e colocado a cortina para não absorver as ilusões alheias. Ou talvez esteja apenas ampliando o mapa que nos levará, finalmente, ao nosso solo. No fim, continuo olhando para o longe, para o distante, mas já não desejo apenas um rosto, nem um esboço. Busco caminhos. Propósitos. Parcerias. E, se o vento da minha Mãe quiser, nos veremos em alguma cidade que ainda não conheço. Quem sabe numa feira de sábado, num antigo cabaré, numa viela qualquer. A vida é um bilhete de compromissos: alguns vão longe, outros vão perto. Será que a partida é sempre certa? A vida tem sido estranha.












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