Tinha um Texto

Tinha um texto programada para subir até as nuvens lilás, até a entrada da casa do sol. Um texto sem cor, sem linha tênue, sem sentimentos, achismos, divindades, poesias ou flores. Um texto vazio, só palavras e algumas estrofes.

Preparei uma escada de cetim, trançada com renda e pérolas. Estava pronta para subir com os versos. Levaria a lua comigo; teríamos um encontro íntimo no cosmo, conversas despidas, corpos flutuando… As estrelas seriam testemunhas e juízas. Não sei qual roubaria; não sei dizer se seríamos réus condenados ou cometas estacionados, aguardando o próximo embarque. Seríamos libertos?

O texto não subirá. Outros quatro estão programados para setembro. Nada sublime, nada aromatizado.

Deixo abaixo o poema de Fernando Pessoa, que reli na última segunda-feira:

“Entre a árvore e o fio,
Peguei emprestado o intervalo de D-us.
O barco sabe para qual lado o rio flui.
Se encontrar o sonho, talvez devolva o gládio.”

Bom setembro. Textos republicados. Inspiração, outubro 2020.

Por Fernando Pessoa
Braço sem corpo brandindo um gládio Entre a árvore e o vê-la
Onde está o sonho?
Que arco da ponte mais vela
Deus?… E eu fico tristonho
Por não saber se a curva da ponte
É a curva do horizonte…
Entre o que vive e a vida
Para que lado corre o rio?
Árvore de folhas vestida —
Entre isso e Árvore há fio?
Pombas voando — o pombal
Está-lhes sempre à direita, ou é real?
Deus é um grande Intervalo,
Mas entre quê e quê?…
Entre o que digo e o que calo
Existo? Quem é que me vê?
Erro-me… E o pombal elevado
Está em torno na pomba, ou de lado?

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