Óculos, sutiã azul-celeste, calcinhas rendadas, um livro de receitas, latinhas com agulhas, botões e moedas, uma pelúcia espirituosa como a Emília do Sítio do Picapau Amarelo, uma bolsa de retalhos, dinheiro amassado, suado, guardado à custa de dias de fome.
Para onde será que vai o ônibus de Débora? As folhas do cajueiro anunciam a brisa, o galo canta certeiro, as panelas da vizinha, o canto da vaca que mugem no leito e a carroça que leva Débora para mais longe.
— Não esquece de mandar notícias, nega! — grita a voz mansa de sua irmã. E elas nunca mais se verão, se terão, se reconhecerão.
Se Débora queria a estrada, Ohana queria a solidão do barro e do lago. O quanto valem os pés numa estrada a caminhar pelo mundo? Sentimento é falta, saudade ou vontade?
Despertei e nos olhei no espelho da vida, num escuro celestial de um habitar realista. Desmaiei. É impossível reagir com tranquilidade. Desesperar com calma porque o coração vai mal e desistir com mais fervor ainda. Enquanto assassinamos destinos, vamos matando a calma que nos cabe.
O quanto vale a calma? Coração precisa ter alma. Ao atravessar o destino, Ohana desfaleceu sem notícias e sem comida. Sem água viva para o corpo, sofreu desesperança e matou o amor da beata que cria.
O alecrim murchou, a rosa não brotou e Débora não escreveu uma palavra que pudesse alimentar os poços secos da casa.
— Mata mais não saber! E o que você quer saber? — Débora, que escreveu o livro da própria vida, não sabia escrever cartas, telegramas ou poesias, não lia as bíblias e não frequentava as missas. Ouvia vitrolas nos bares, mas não comprara fichas para o tulipa… Uma ligação bastava. Uma mensagem que trouxesse esperança.
As noites quentes de casa faziam falta. O café feito com rapadura, o milho debulhado no quintal. Até cachorros sarnentos nas sombras das estradinhas faziam Ohana chorar no desespero. Bastava uma notícia. Um pedido.
Um bezerro, uma sanfona e dona Santana viravam o sertão e o serrado inteiro, mas não.
Saudade de comer cocada molhada. Mas há apenas coqueiros sem coco. Bilhete de trem de outro país, passeios inquilinos depois de engolir o voo que não decolou e um punhado de garrafada para limpar o corpo que nem conheceu.
Vontade de devolver todas as palavras que criei para convencer-me de querer-te perante mim. O que prometi, cometi e omiti com tais palavras? Palavra tem validade ou valor? Palavra é dada. As boas retornam a casa. Umas machucadas, outras trocadas.
Dinheiro amassado é relativamente bêbado de vontades. Sinto a palavra esmagada num cofre de barro, desses que se compram na beira de rodovias. Sinto a palavra sem ar, sem posições confortáveis, sem escapatórias, sem querer usar.
Queria nos colocar num cofre. Jogá-lo ao chão, contar tudo que foi ajuntado, revelar os valores e ir conquistar o que o compromisso havia firmado.
O que guardaríamos no cofre? Documentos. Seus relógios. Obra de arte das filhas? Suas armas? Nosso retrato de criança? Um poema. Seu livro.
Ohana, vocês duas estavam certas… Ir ou ficar não muda o destino final quando aprisionamos o presente e assassinamos a esperança dos dias vindouros. Calma. Nós conseguiremos.
Se Maimônides, David, Israel, Luria, Azarete, Estras, Rachel, Hilda, Pessoa, Pestalozzi, Golda e tantos outros conseguiram.


