Rosh Chodesh Elul

A lua se recolhe para nascer de novo. Seu fio prateado quase invisível nos lembra que o tempo é feito de ciclos, de pausas e recomeços. Cada início de mês lunar traz consigo a possibilidade de abrir as janelas da casa depois de uma longa noite: entra o ar fresco, o silêncio se renova, o corpo agradece.

O mês de Elul, que começa com essa lua nova, pode ser visto como um convite ao cuidado de si: reconhecer os próprios limites, acolher feridas antigas, preparar-se para um ciclo de colheita interior. Nesse mesmo movimento, os Salmos são lidos como cânticos que acompanham a travessia. Os três primeiros já apontam caminhos: raízes que mergulham em águas silenciosas, frutos que amadurecem na paciência da espera, justiça que brota de um coração atento e a coragem de encontrar refúgio mesmo diante das sombras.

O Salmo 1 fala do caminho fértil de quem cultiva a vida como uma árvore plantada junto às águas, aprendendo a discernir a força do vento e a firmeza da terra. O Salmo 2 lembra que, mesmo quando os mundos parecem se rebelar e o medo se agita, há uma ordem maior e silenciosa que acolhe e protege. O Salmo 3 mostra que a coragem floresce quando o coração encontra repouso, mesmo cercado pelo barulho e pela confusão.

Esses textos nos recordam que a vida precisa de raízes profundas para florescer, que a busca pela clareza é antídoto contra o caos e que o descanso verdadeiro nasce da confiança.

E é justamente aqui que a Parashat Reê, cujo nome significa “Vê”, se encontra com o espírito de Elul e com os cânticos dos Salmos. Um convite poético à arte de ver além da superfície: ver não apenas com os olhos da carne, mas com a delicadeza de um coração desperto. Ver onde a vida floresce, onde o alimento se torna cura, onde o gesto simples de partilhar pode erguer um mundo inteiro.

Reê nos lembra que toda escolha é também semente. Cada gesto plantado no silêncio da alma pode germinar em bênção ou se perder na aridez. O que nutrimos, comemos; o que comemos, transforma; e o que transformamos se reflete no mundo ao redor. Por isso, cuidar do corpo, da mente e das relações é também um exercício espiritual.

Assim como o ciclo lunar, Reê nos mostra que sempre é tempo de recomeçar: abrir mão de dívidas antigas, libertar correntes invisíveis, soltar os pesos que cansam. A bênção começa quando se aprende a ver com clareza e a escolher com consciência.

Não como mandamentos frios, mas como inspirações vivas, tanto os Salmos quanto a Parashat Reê funcionam como pequenas doses de respiração: alinham corpo e mente, memória e presente, gesto e consciência. São lembretes de que cada escolha, cada olhar e cada palavra é uma travessia capaz de abrir caminhos e iluminar o cotidiano.

Reê nos convida a praticar uma visão terapêutica: olhar para a vida como quem enxerga entre linhas, como quem sabe que o mundo é feito de ciclos e que em cada gesto cabe a chance de recomeçar.

Ver é cuidar, ver é nutrir, ver é libertar. E no simples ato de ver com o coração, já começa a bênção.

Assim começa o ciclo: com lua nova e cânticos antigos, com raízes que se aprofundam e frutos que amadurecem, com olhos que aprendem a ver e mãos que se abrem para partilhar.

É nesse chão firme e silencioso que o coração encontra espaço para florescer.

Shavua Tov! Que sua semana seja de bênçãos, clareza e recomeços 🌕🧿💫

Meditação: Salmos 1 a 3 | Parashat Reê (רְאֵה — “Vê”) está no livro de Devarim / Deuteronômio 11:2616:17.

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