
Ela desejava em seus lençóis sentir o abraço envolvendo seus cabelos, os dedos prendendo seus anseios, a boca falando sobre a vida dos deuses e a respiração falando por eles. Tanto sentir fazendo sentido, tantos outros persistindo… Outros, indo ao vento.
Ela desejava, sabendo que não deveria. Mesmo longe, disperso, mesmo que não sentisse, visse ou quisesse, ela confessava seu desejo.
Ela ansiava pela profundidade e intensidade das verdades, da casca que cobre o manto seguro, do olhar que não traduz. Queria colocar um punhado das cinzas do renascimento em seu chá. Qual seria o gosto do amargo?
Ela cancelou a oração do início do dia e a fez em desejos silenciosos… Uma lágrima, um sorriso, um calor invasivo, um mal-estar sentido, querido. Seu tom quase ouvido, quase sentido. Desculpa!
Ela adormeceu e acordou em momentos, querendo, desejando, possuindo em aromas, em notas leves, em sentidos gananciosos. Onde estavas, que hoje não apareceu em seus sonhos?
Ela quis. Quis na pele e em suas mãos. Quis banhar em perfume extraído em dia chuvoso, quis lavar todos os resquícios de mágoas, anseios, preocupações, pesadelos, desejos passados, pensamentos pesados.
Despertou… Abriu as pétalas das rosas que escolhera. Por mais aroma que houvesse, não podia mergulhar no chá que fizera para embebedar-se e descrever.
E mesmo que tivessem tempo, não podia desejar, não ainda, não agora. Não trouxera para cá, por mais que estivesses e sentisse ao longo do dia, permanecias na fumaça do incenso, no aroma que invadia a janela, no pôr do sol quando encontrava o mar ou quando despertava nas madrugadas.
Quando vamos nos amar? Deixa como um dia não terminado. Em suas ambições, projetos, conquistas, sonhos. No Alto, no ninho da imersão passada, na onda batendo nas pedras, nas folhas caindo em seu berço, em sua jangada… na poesia que não consegue escrever, no beijo que guardara.
Fiquem bem.
Inspiração, março de 2020.












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