
Amassar a massa do pão devagar é quase um rezo. Você sabe fazer pão? Claro que sabe. Pelo menos na sua cabeça. Porque na prática, fazer pão é basicamente assinar um contrato com a farinha: ela vai sujar sua cozinha inteira e você ainda vai agradecer no final. Então anota: 500g de farinha, aquela pitada de sal que nunca dá certo, fermento vencido (porque claro que você esqueceu no armário), água morna que nunca é morna o suficiente, e uma lambida de azeite para fingir que não vai grudar tudo nos dedos… mas vai. Tudo seco, depois tudo úmido. É nessa hora que tu senta com os espíritos de baixa luz e diz na cara deles que quem amassa o teu pão é você mesma.
A mão que toca a farinha e a água não apenas mistura, mas invoca o tempo. Porque quem decide a hora do coração é o destino, e quem decide a hora de quem vai comer do meu pão sou eu. Entre as dobras da massa e as dobras do tempo, há sempre ensinamentos ocultos. E é o coração que ensina, é ele quem conhece as pausas, quem guarda a memória de quem somos.
Se tu pudesses ver o tamanho da força dos Guardiões que nos regem, não haveria espaço para inseguranças e incertezas. Não se permitiria anular nem por um segundo. Não terias anseios desnecessários, porque saberias que o destino já foi traçado com sabedoria muito antes da nossa chegada. Quando ousei em tirar o pão da minha vida, Orí me deu alguns ensinamentos. Èṣù não trabalha para afastar os inimigos; trabalha para revelá-los. Ensina como lidar com cada um e ainda os convida a assistir a tudo. Essa deve ser a pedagogia: transmutar cada obstáculo, alimentar o coração da boca de quem quer te devorar, porque tem muita gente bela viola, mas não passa de pão bolorento.
Às vezes, a mais terna doçura que Orí me concede é guiar-me por caminhos que meu coração não ousou escolher. Estranhos, por vezes dolorosos, essas sendas silenciosas guardam os segredos mais genuínos da minha alma, onde nascem as bênçãos que apenas o destino sabe revelar. É nos passos do caminho, no desconforto do pisar que as dificuldades são apresentadas. É no sopro de cada decisão que a encruzilhada mostra que até a pedra que machuca pode virar altar. E eu gosto de pedras… compra uma moldavita, uma turmalina preta!
É nessa ternura, nessa essência silenciosa, que a massa me lembra que eu, assim como ela, preciso do descanso para crescer, descansar para seguir. O coração, quando se dobra, encontra segredos que o destino e o tempo esconderam por muitos anos. Seria eu desviando mais uma vez dos meus caminhos? Dos meus acordos? Atenção plena… disse ela.
Èpàá Èṣù! Que eu saiba reconhecer e honrar, nas voltas dos meus muitos caminhos, o Mestre que me ensina sem pressa, mas com firmeza, astúcia e inclusão.
Hoje não Tem Café. Tem pão, tem challah, maçã, mel, vinho, fé consciente e caridade. É Rosh Hashaná.
Bom mês. Inté!












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