Bo: quando ir é um ato de coragem e sair é um pacto com a dignidade


Bo significa “Vai”. Não é um convite gentil. É uma convocação. D-us diz a Moshe: vai ao faraó, mesmo sabendo que o coração dele ainda está endurecido. A Cabalá ensina que há momentos em que o movimento precede a compreensão. Primeiro se vai, depois a consciência alcança. O Zohar comenta que Bo marca o início da saída real do Egito, ainda que os pés permaneçam lá. A libertação começa quando a mente deixa de negociar com a opressão. O que em você ainda pede autorização para ir? Quem disse que você precisava continuar?


As últimas pragas expõem a face mais crua da escravidão. Trevas, silêncio, morte do primogênito. Não são apenas eventos históricos. São estados de consciência. A escravidão, ensina o Talmud, sempre começa quando alguém passa a ser reduzido a ferramenta. No Brasil e na América Latina isso não é metáfora. O trabalho análogo à escravidão ainda existe. Homens e mulheres em carvoarias, fazendas, oficinas de costura, obras isoladas. Pessoas invisibilizadas pela pobreza, pela cor da pele, pela falta de opção. Há campanhas, há fiscalizações, há resgates. Sim, algo está sendo feito. Mas a pergunta cabalística é mais funda. Por que ainda aceitamos estruturas que se alimentam da exaustão do outro? Quem se beneficia quando a dignidade vira custo?


O filme Pureza escancara essa ferida brasileira ao mostrar uma mãe enfrentando o sistema para resgatar o filho. 12 Anos de Escravidão faz o mesmo em outro tempo e lugar. A Torá não nos permite dizer que isso é passado. Bo nos obriga a olhar. Escravidão não é apenas corrente no pé. É dívida que aprisiona, medo que cala, fé usada para justificar abuso. Quantas pessoas trabalham até adoecer acreditando que isso é destino? Quantas chamam exploração de oportunidade porque não aprenderam outro nome?


Os salmos que acompanham esta parashá amplificam esse clamor.

O Tehilim 67 fala de bênção que deve se espalhar. “Que D-us nos abençoe e faça resplandecer Seu rosto”. O Zohar lê este salmo como responsabilidade coletiva. Luz que não alcança o outro ainda não é luz completa. No cotidiano, isso se traduz em escolhas. Onde você consome? Quem paga o preço do conforto que você chama de normal?


O Tehilim 68 fala de D-us como aquele que liberta os cativos. “D-us faz habitar em família os solitários, conduz os presos à prosperidade”. A Cabalá ensina que liberdade não é apenas sair, é ter para onde ir. Muitos resgatados da escravidão retornam a ela por falta de alternativa. Que tipo de sociedade liberta sem sustentar? Que espiritualidade ignora o depois?


O Tehilim 69 é o grito de quem se afoga. “Salva-me, pois as águas chegaram à minha alma”. Davi fala de humilhação, de vergonha pública, de ser tratado como estranho. Quem são hoje os corpos que carregam essa oração sem saber lê-la? O Rabino Abraham Joshua Heschel dizia que a indiferença é a maior heresia. Não porque nega D-us, mas porque nega o humano feito à Sua imagem.


Bo também nos coloca diante do mistério da morte dos primogênitos. A Cabalá explica que o primogênito simboliza o primeiro pensamento, a ideia que governa todas as outras. O Egito cultuava a força, o poder, o domínio. Essa ideia precisava morrer para que outra consciência nascesse. Não se trata de vingança, mas de ruptura de um princípio. Qual é o pensamento primogênito que governa sua vida? Ele serve à liberdade ou à repetição?


Há aqui um segredo profundo ligado ao primeiro mandamento. “Eu sou o Eterno teu D-us que te tirou da terra do Egito, da casa da servidão.” Antes de qualquer lei, vem a libertação. A Cabalá ensina que não se pode servir a D-us sendo escravo. Nem de pessoas, nem de sistemas, nem das próprias sentenças internas. Que voz manda em você quando decide permanecer onde dói? Quem é seu faraó íntimo?


Os rituais de Pessach, o sangue no umbral, a matzá apressada, não são magias no sentido vulgar. São atos de consciência. Marcar a porta é declarar limite. Comer o pão sem fermento é abandonar a inflação do ego. O Ari z”l ensinava que cada geração deve se ver como se estivesse saindo do Egito hoje. Isso inclui romper com trabalhos que desumanizam, relações que exploram, crenças que aprisionam. A Parashat Bo aprofunda essa travessia ao narrar o momento exato em que a libertação deixa de ser promessa e se torna gesto. É nela que o povo recebe a ordem de marcar os umbrais, de comer às pressas, de assumir responsabilidade ativa pela própria saída. Bo ensina que a redenção não acontece sem consciência, sem escolha, sem a coragem de agir mesmo antes de enxergar o deserto adiante.


Bo termina com movimento. O povo sai. Não pronto, não curado, mas livre. E liberdade, a Torá insiste, é processo. Que este fim de janeiro seja um marco de renovo. Que você encontre coragem para ir, lucidez para sair e compromisso para não reproduzir correntes, nem fora, nem dentro. Deixar de ser escravo é, sobretudo, deixar de acreditar nas sentenças que nos condenam antes do caminho começar.


Que a próxima semana inaugure desafios mais conscientes e passos mais dignos.

🕯Que a liberdade seja prática e não apenas promessa. Shavua Tov.


Fontes:
Chabad.org, Ensinandodesiao.com.br
Zohar, Parashat Bo, Talmud Bavli, Ensinos do Ari z”l e Abraham Joshua Heschel.

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