Tua letra na minha pele

Se houvesse espaço e o pincel estivesse nas suas mãos, o que a poesia escreveria na alma? Garatujas, versículos, cartas escritas, descritas, receitas pormenorizadas, romantizadas…

Haveria uma carta? Escreveria uma, mesmo que não fosse uma carta de amor, e sim, uma carta da existência, da resistência, da história, das outras vidas, da nobreza ou da sua dor. Traduziria a letra, o idioma, as palavras silenciadas, os versos faltantes?

Nem precisaria de lupa, só café, dicionário técnico e aroma de sândalo. Te escreveria uma carta com amor, se houvesse coração suficiente para preencher as linhas do espírito, do amor. Mas eu queimaria essa carta. E eu não reescreveria a carta.

Queria tua letra na minha pele, as mãos na minha poesia, teus neurônios na minha libido. Eu queria mudar o tempo verbal desse verso. (Eu quero!)

E a pele teria poesia, versos, cicatrizes, contos, mergulhos profundos? Teria o cheiro do perfume, o gosto dos lábios, teria o amargo e o orgasmo. Teria a rima e a cor da tinta que pintaria os espaços?

Teria as mãos na pele fria, no corpo ácido; boca que escorreria o sabor do azedo. Teria o amparo? Tu tirarias a roupa, lavarias os pés, usarias a tinta que sobrou… nas pernas?

Estancarias o sangue que os poros jorram, costurarias os poemas, nos colocarias para dormir? E meu olhar seria sua arte viva? Ou tu secretarias os olhos, sussurrarias os ouvidos e arrancarias os medos, os beijos, os meus cabelos…

De toda forma, tu encontrarias minhas madeixas jogadas no chão do banheiro. Pincel em mãos! Escolha a cor da tinta, colore o preto, descobre um pedaço na pele, fixa o corpo, a mão, esquenta o toque, a gota de suor que escorre nas cicatrizes, esconda sua ferida, camufla o choro, desfaz as lágrimas, ama.

Não imaginaria os versos, os lençóis, as nossas letras, o pincel, o bisturi, os bistrôs, as cidades, os corpos jogados ao vento, o começo, o vestido que tiraria do cabide, a lingerie que vestiria os desejos do ano de recomeços, mas com começos, sem tentativas, apenas dieta.

Não imaginaria a poesia, nem pele, nem corpo, nem sentimentos, só a pele vazia, a alma esquisita e o coração endurecido, escorrendo a tinta no secador da pia. Amor é o futuro do pretérito, que eu queria, numa quinta-feira fria.

Nota: Estudando os verbos.

Texto republicado, inspiração setembro de 2019. Imagem: Inteligência Artificial.

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