O Fogo que Arde


A Parashat Tzav começa com uma ordem direta: manter o fogo aceso no altar continuamente; ele não deve se apagar. No silêncio da alma, o que esse “fogo” representa para você hoje? Os sábios ensinam que o altar não é apenas uma estrutura externa de pedra, mas o próprio coração humano. Se o fogo deve queimar “o tempo todo”, como sustentamos essa chama em meio ao automatismo da rotina, ao cansaço ou às distrações da matéria?


Na Cabala, entendemos que o Korban (sacrifício) vem da raiz Karov, que significa “aproximar”. Não se trata de uma barganha com D-us, mas de um processo alquímico de transmutação. O que em nós precisa ser “queimado” para que a nossa essência possa subir como um aroma suave? Talvez seja o nosso ego, o desejo de receber apenas para si mesmo, ou aquela certeza rígida que nos impede de mudar. Como diz o Zohar, “A fumaça de baixo desperta a luz de cima”. O que você está oferecendo ao seu fogo interno hoje para que essa luz desperte?


Enquanto o hemisfério norte celebra a Páscoa sob o signo de Ostara — a fertilidade da primavera e o renascer das flores — nós, no Brasil, vivemos o outono. O rito da Páscoa (Pessach), sob uma lente cabalística, é o salto sobre a consciência de escravidão (Mitzrayim). Para nós, neste solo, a magia não está no desabrochar externo, mas no recolhimento fértil. É o momento de selecionar as sementes que guardaremos durante o frio. Se a Páscoa é passagem, de qual “Egito” emocional você está tentando atravessar agora, enquanto as folhas caem lá fora? É possível encontrar renovação no desapego, e não apenas na abundância?


Os Salmos desta semana nos oferecem a frequência exata para essa sintonização.

O Tehilim 97 nos recorda: “Luz é semeada para o justo, e alegria para os retos de coração”. Note a sutileza: a luz é semeada. Ela não aparece pronta; ela exige o solo do esforço e o tempo da maturação.

No Salmo 98, somos convidados a cantar um “cântico novo”. Como podemos cantar algo novo se insistimos em repetir as mesmas reclamações e padrões de ontem? Onde reside a sua capacidade de inovar a própria vida diante de D-us?


Já o Salmo 99 ressalta a santidade e o tremor: “Exaltai a D-us, nosso Senhor, e prostrai-vos diante do escabelo de Seus pés; Ele é Santo”. Essa reverência não é medo, mas o reconhecimento da magnitude da Criação. Os rabinos costumam questionar: “Por que o fogo do altar precisava de cinzas removidas todas as manhãs?“. A resposta é simples e profunda: para que o novo fogo tenha espaço.
Quais cinzas de velhas vitórias ou de velhas dores você ainda carrega e que estão sufocando a sua chama atual?


Nesta semana, ao olhar para uma vela ou sentir o calor do sol, lembre-se da instrução de Tzav. O comando não é para que D-us acenda o fogo por você, mas para que você, com suas próprias mãos e intenção, não deixe a chama apagar. Que o “cantar novo” do Salmo 98 seja a trilha sonora desse seu movimento de aproximação. Qual será o seu primeiro passo em direção ao centro do seu próprio altar?

Bom domingo!

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