Quando conheci o paciente do corredor da esquerda…

“Ninguém espera que sejamos remédio para toda angústia e rio para toda sede, entretanto, à frente da sombra e da secura que atormentam os homens, cada um de nós pode ser a consolação do raio de luz e a bênção do copo d’água.” Emmanuel
Pá, ciência! Homem, branco, belo, jovem, não mais de trinta anos, uns vinte e três, eu acho, não lembro mais. Sozinho. Negligenciado pela família, abandonado pelos parentes. Amigos? Não sei se teve algum. Amantes? Uns fingidos, fugidos. Outras, raivosas.
Assim como o Homem daquele leito, magro, pálido, amargurado e totalmente desacreditado da vida. Todos os pacientes do corredor esquerdo estavam “condenados à morte”, sem um dia certo, mas com hora esperada.
A maioria dos colegas não queria “os da esquerda”. Entendo. Do odor ao humor, tudo era difícil… Ambiente sombrio, nulo de alegrias, sem chances de fertilidade, jardins iguais cemitérios, flores secas na capela, corredores para a morte, luzes apagadas, sonhos sem fim.
Uma seringa, dois tubos, um vento forte no corredor! Seu histórico era um dos melhores da enfermaria, mas, por segurança, mais dos outros que dele, mantinham suas mãos atadas e longe dos objetos.
Ele quis saber da idade, do nome no jaleco, dos namorados, da caneta colorida e reforçou que quem estava armada não era ele.
– Não tenha medo. Não faria nada contigo. Tu não mereces essa merda que eu tô vivendo.
Entre mãos trêmulas, furos, veias, sangue e papéis, uma conversa saudável foi iniciada. José descreveu sua trajetória, onde foi prejudicado, abusado, contaminado, abandonado… onde orquestrou suicídios, como foi socorrido, como foi espancado, como tentou matar as irmãs, como flertou com o alcoolismo, como foi parar naquela situação, como sobrevivera em seu experimento de quase morto.
José se dizia invisível, como o vento. O histórico hospitalar relatava que tentara “furar” duas funcionárias. Não era a primeira vez internado, mas nunca com o quadro nas últimas, nem mesmo quando tentou sanar sofrimentos com cortes profundos.
A ficha também relatava: “paciente cantor”, em algumas horas do dia, ele costumava cantarolar coisas sem sentido, mas tinha sentido, só que muitos não compreendiam do idioma espiritual de José.
Perguntado sobre o que falava, ele responde:
– José invisível… como o vento…
– Mas vento dá para sentir, José.
E ele começou a cantar… Eu senti o vento de José.
– É uma pena, chegaste tarde, seria boa amiga…
A verdade é que José havia decidido abreviar seu tempo, parou de tomar os antirretrovirais, desistiu de lutar contra o corpo, deixou de doar o corpo aos vícios sujos. Desistiu da luta que era sobreviver num corpo frágil e quebrado, sem fórmulas mágicas, sem casa, sem versos, sem ter o que comer por muitos dias.
José já não aceitava comida, vez ou outra bebia água. Na semana seguinte, veio a óbito.
Existem muitíssimas formas de desistências. José desistiu do sopro. Mas a espiritualidade não desiste de ninguém. Deus é conosco, sempre!
Milhares de Josés seguem na invisibilidade. Caminham na vida sobrevivendo com preconceitos, intolerâncias, abusos de todo tipo, de grau e de formas, inúmeros relatos de violências. Realidades duras e tristes; dentro e fora da vivência familiar.
A pauta do café de hoje podia ser vacinas, omissão na liderança, hipocrisia da população brasileira, conservadorismo sem ética e respeito, aniversário dos cariocas (quero bolo de 456 metrôs) ou quando poderemos ter uma crise alérgica no mercado, espirrar mil vezes e não receber olhares ofensivos, mas não, a reflexão é a do calendário:
No dia 1 de março se comemora o Dia de Zero Discriminação para reforçar o combate para a eliminação de todas as formas de discriminação contra as pessoas que convivem com HIV.
Um dia zero, dois dias zeros, um mês, um ano, uma vida inteira…
Em algum momento, todo esse egoísmo que cometemos uns aos outros terá fim. Espero estar em outra dimensão. Eu que lute, mas, creio.
Gratidão por sua leitura.












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