Escorre o corpo, os lábios, os olhos, o útero, a pele, os seios, os cabelos, a mente.
Tudo escorre. Tudo!
As mãos escorrem sobre o corpo que insiste em secar sem êxito.
O corpo não obedece tanto quanto a mente. E a mente, mente pro corpo, o corpo inteiro mente sobre o que escorre na mente.
Desfaz o líquido, seca o corpo.
Retira a lágrima. Prende o ar e seca os lábios. Não dar para enxugar o útero, nem enganar a mente com gelo seco e ervas.
O corpo insiste em escorrer tudo que há de transbordar. Ele não liga para os líquidos, ele quer os anseios, os seios, os meios.
Ele quer escorrer.
O corpo quer as mãos presas entre as mentiras que sente. Quer as verdades que inventa pra mente. Quer o ar da voz. A pele aquém, os líquidos além, sem muito poréns.
O escorrer quer o corpo presente e a ausência distante. A pele quer merecer. Os olhos recorrer. E as mãos percorrer.
Desfaz o pensamento, menina!
Tira o líquido e o pensar das mãos.
Tarde demais.
Enche o corpo com o escorrer das águas.
Escorre as águas, líquidos quentes, frios, doces, azedos. Com específicas lágrimas, com gozos expostos, com delicadeza do gosto, com desgosto do riso, com sorriso imprudente na mente em falta perceptível.
Que gesto medíocre. Vá, seca o corpo.
Não poderia escrever sobre o tédio que escorre. Não ousaria dizer o que escorre na mente, nem no sorriso, nem na pele, nem nas palavras ausentes no corpo, nem na voz anulada por séculos.
Por vez, o escorrer enche a mente, com água, com água de banho. De alecrim, de boldo, sem mim, de mim.
Quem sabe o corpo acenda a vela e faça escorrer.









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