Havia desejado um jardim, um que, por algum motivo, inflado do ego, tinha que ser chamado de “meu”. E nunca foi. Se quer, plantou flores para o jardim e quase morreu desejando isso. Se, quando escreveu o antigo texto [leia aqui], ainda queria, hoje não quer mais.
A flor da beira da estrada basta, e a tiririca do brejo movimenta bem mais! A ferrugem do tempo, de forma esquisita e peculiar, ainda encanta os olhos, que, por vez, arquitetam encaixes perfeitos e desfazem qualquer suspiro de desejo que chega pela manhã.
– Que nobre sobrado, Luziara! Mas a donzela do 1620 morreu congelada com o vento dessa porta aberta. Não tentou escapar pelas belas trepadeiras estacionadas nas marquises, nem trancou janelas. Faleceu sua, nua e fria, enroscada no sumo da folha de benjoim, extasiada num embrulho de alfazema, com rezos celestiais calados e bêbados de ilusões.
– Não, Luziara. Não foi o vinho, nem suas ervas daninhas. Foi a ausência do calor, o desejo pregado em parede de tijolos ocos, junto com a falta do cálcio e do ferro que mantêm as estruturas. Não visitar o lodo das águas cristalizadas… O caminho em lamaçal são estradas escorregadias. É sufocante, é asmático, e por vezes falta o ar, o oxigênio. O respirar torna-se trabalhoso e mais valorizado. Não mais fotossíntese. Não afogar mais em abismos. A fonte das águas basta-lhes. Não o inspira como antes, nem planta mais nada. Nem rosas, Luziara. Nem rosas!
Mas o céu do orí continua aquático, brilha o ouro e a paz. E mergulha no Lua de prata que alumia escuridões e traz sonhos e luz aos novos tempos.
Sagrado és. Sagrado é o jardim que cura e nos revela a vida.
Maio, 2021.









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