
“E ele foi…” assim começa a Parashá desta semana. Uma frase curta, um suspiro de passagem. Moisés não foi embora apenas, ele entrou em outro tempo. Cada alma, em algum momento, chega a esse ponto: não pode mais entrar e sair por todas as portas e precisa entregar o bastão. O Zohar sussurra que caminhar é sempre também morrer um pouco, cada passo é uma despedida e uma criação. Vayelech não fala apenas de Moisés, fala de ti, de mim, de todo aquele que se percebe atravessando a fronteira entre um ciclo que termina e outro que insiste em nascer.
Quais portas internas você já não consegue mais atravessar, mas insiste em empurrar? O que na tua vida precisa ser confiado a um novo Yehoshua interior? Moisés aceita sua finitude, ele não luta contra o tempo, faz do tempo seu aliado. Eis a sabedoria dos magos: só quem sabe entregar pode continuar existindo dentro do que vem depois.
Os Tehilim são remédios, cada um com sua erva, seu unguento, sua frequência. Nesta semana três vozes nos acompanham. Salmo 16 diz “Tu és a minha porção”. Aqui está a oração do desapego. Tudo pode se mover, mudar, ruir, mas a alma se ancora naquele que é a porção inquebrável. É um salmo de confiança serena, usado pelos cabalistas como amuleto de proteção do coração. Quantas vezes buscamos porções em coisas frágeis, dinheiro, aplausos, relacionamentos. E quando quebram, nossa alma despenca. O salmista lembra: o bem maior não se quebra.
Salmo 17 nos chama: “Ouve a justiça, ó Senhor”. Aqui surge o clamor pela integridade. Não é um pedido por vingança, mas um grito para que a verdade seja ouvida. O Midrash Tehillim comenta que este salmo é o eco da alma perseguida que pede julgamento não no tribunal humano, mas diante da Luz. Você já ousou pedir que a Verdade, nua e sem máscara, seja testemunha da sua vida?
Salmo 18 proclama: “O Senhor é a minha rocha, fortaleza e libertador”. É o cântico da vitória de quem passou pelo vale e agora canta. Na Cabalá, esse salmo é a alquimia do medo em coragem, é a transformação do inimigo externo em mestre interior. E se os inimigos que nos caçam fossem apenas versões antigas de nós mesmos, exigindo que finalmente os enterremos?
Salmo 27:1 é a vela acesa que atravessa este período: “O Senhor é minha luz e minha salvação; a quem temerei?” Entre Rosh Hashaná e Yom Kipur, essa frase é como espada de fogo que corta o véu da dúvida, é o cântico da confiança absoluta. Os cabalistas recomendam repeti-lo até que se torne respiração.
O Talmud ensina: todo aquele que recita os Tehilim como se fossem cânticos comuns perde o mundo vindouro. Porque o salmo não é música de fundo, é medicina. Ele só age quando lido com consciência, como quem ingere um elixir. O Zohar revela que quando a alma pronuncia um salmo, desperta anjos correspondentes que se movem como guardiões, cada palavra é uma chave que abre portais invisíveis. Assim, quando você diz “O Senhor é a minha porção”, não está apenas falando, está consagrando a sua porção interior, atraindo uma luz que reorganiza a alma.
No Brasil estamos às vésperas de outubro, mês de balanços, de colheitas tardias. E na tradição judaica, entre Rosh Hashaná e Yom Kipur, cada um revisa suas sementes. É tempo de perguntar: o que plantei que agora floresce em frutos doces e o que plantei que só gera espinhos? Imagine alguém que deixa um cargo de liderança. Sente receio, “quem continuará? Vão me esquecer?” Vayelech ensina que a verdadeira liderança sabe passar o bastão, sabendo que sua luz já foi semeada no outro. Assim também nós, ao soltar, não perdemos, multiplicamos.
Nesta caminhada espiritual podemos usar a chave cabalística citada pelo Rabino Yair Alon: “Entre o silêncio e o símbolo eu caminho.” Este é o fio invisível que nos guia, a ponte entre a introspecção e a manifestação, entre o ouvir a alma e agir no mundo. Cada passo consciente é um movimento entre o silêncio que acolhe e o símbolo que desperta.
Que esta semana seja um convite a caminhar com coragem, a recitar com fé e a confiar no invisível que sustenta cada passo. Vayelech nos chama a aceitar que o tempo é passagem, mas também a descobrir que a passagem é eternidade. Os Salmos 16, 17 e 18 nos devolvem à rocha firme: confiança, integridade e libertação. Que possamos atravessar estes dias com a chama do Salmo 27:1 acesa dentro do peito. Receba um domingo abençoado e um Shavua Tov, que tua semana seja uma travessia de luz e renascimento.
P.s. hoje é aniversário do artista. Dr. Vitorino, feliz día de cumpleaños. Bênçãos de vida.













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