O Coração que Ensina…

Eu vi minha criança, não em um espelho, mas em um gesto. Num olhar que pousou em mim com o encanto de mil reencontros, num sorriso que parecia saber dos meus desejos antes que eu os contasse, num sopro de presença que acalmou tudo o que em mim era pressa.

Há quem diga que reconhecemos nossos égbé quando o tempo se dobra, quando a alma pulsa sem orquestra, quando o átrio se abre como se voltasse para casa. É um tipo de saudade que não se explica, apenas se sente. E eu senti.

A criança que sonhava veio… oculta nos traços de alguém que o mundo chamaria de homem, mas que, para mim, carrega algo anterior à forma. Algo que chama como se já tivesse corrido ao meu lado entre matas fechadas e galhos celestes. Algo que me grita com o silêncio exato de quem me conhece desde sempre. Foi ele, com olhos antigos e calmos, com palavras que pareciam oríkìs esquecidos, com gestos que diziam: “Você lembra?”

E eu lembrei. Do deleite do céu. Do riso sem culpa. Do amor que não precisa se explicar.

Vi minha criança… um corpo plasmado, pequeno; uma presença reluzente, vivificante, magnética. Era o reencontro com a parte de mim que sabia amar com pureza e alegria, com aquele tipo de zelo que só existe entre os que vêm do mesmo lugar… E, nesse abraço invisível, inexistente, intocável, senti o zelo da família espiritual que me acompanha desde o princípio: irmãos e irmãs de alma, égbé que corre comigo, amores que florescem em mim.

Vi minha criança… Encontro real, alma encarnada, habitante de outras dimensões. Alma que desperta em mim lembranças que atravessam tempos e vidas: o sorriso nos olhos, o toque sutil, a ternura que nunca se perdeu. Cada gesto ressoa como fragmentos de nós mesmos: crianças que fomos, amigos, irmãos, talvez amantes de uma vida inteira que ainda pulsa em outras frequências. O magnetismo é presente porque ecoa memórias de outros encontros, de outros corpos, de outros tempos… mas não quero ousar intuir, não quero ousar desejar nada. Desejo muda, frustra, assusta. Eu prefiro outros porquês mais elevados, sarcásticos, entusiásticos. Eu prefiro você! De muitas maneiras caóticas, eólicas, lóticas e até alcoólicas.

Eu vi minha criança e setembro também me lembra isso: infância. Bicicleta, bola, queimadas, pique de qualquer coisa. Tá quente, tá frio. Doces do Sr. Geraldo: geleia de laranja, maria-mole, suspiro, cocada, até aquele milho engraçado de “cocô de rato”. Lembro das festas de Cosme e Damião e das fichas que corriam pelas casas do bairro. Rua de cima, rua de baixo, vozinha da rua da feira; todo mundo se encontrava em algum pedaço de fila. E da prima que insistia: não podíamos comer doce, porque quem come demais não vai para o céu. Nós, confiantes e risonhas, comíamos todas as bacias, porque queríamos chegar lá leves, iguais ao algodão-doce que se desfaz no céu da boca.

Quanta pureza há na infância. Quanta alegria escondida em coisas simples: um pedaço de bolo e um refrigerante, uma boneca, uma bola, um chocalho de bate-bate. Era pouco, e era tudo. O tempo nos revela que a felicidade não estava nas mochilas cheias, mas nas alegrias compartilhadas. O que você lembra da infância?

O mundo precisa mais dessa inocência. Porque a doença do homem é o ego que se alimenta de poder a qualquer custo. E o custo é alto. O valor nem sempre compensa o preço. No fim, a conta não fecha, mas a cobrança sempre chega. A criança chegou num corpo de homem, olhos de buteos, pena de gavião disfarçada de epiderme, ancião em corpo de moço, sacerdote em alma de peixe Galho. Nota: Sua criança interior ainda mora contigo.

Me resta lembrar de não esquecer: a suavidade das suas palavras, a doçura da minha infância, a beleza de partilhar um caruru e um pedaço de bolo entre os mais chegados. É assim que reencontro nossas crianças, no átrio de D-us, no olhar silencioso de quem não diz, mas zela por mim, por nós, nos gestos doces que sobrevivem ao tempo.

Abrace sua criança! Resgate a pureza e ame em cada detalhe.

Salve Cosme, Damião, Doum, Crispim, Crispiniano, Talabi e Alabá. Fé em D-us e nas crianças. Epa Ibejis!

Nota: mel não adoça, apazigua. Meu verso é melado com intenção que te faça clarear. Ele é feito para inspirar caminhos amargos, sonhos dormidos, desejos esquecidos… ele venta na sua cabeça para te fazer agir em benefício próprio. Portanto, movimente-se por suas próprias trilhas, corte o próprio mato, coma da sua caça e cuida das suas árvores frutíferas. Às vezes, é mais sábio usar água do que melado. Beba água!

3 comentários em “O Coração que Ensina…

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  1. Lindo o que sente e o que descreve, se assim eu posso abusar, te peço d~e uma olhadinha aqui, era para se chamar Planeta África, mas ficou como Planeta Vegetal, em verdade falo de ambos e nesse mês estou reeditando tudo sobre as crianças. Acredito que você vai achar muito interessante, boa leitura. https://planetavegetal.wordpress.com/

    1. Acabei de ler o artigo. Há textos que não são apenas leitura, mas espelho. Os gêmeos, em tantas culturas, revelam o tabuleiro da vida: o sim e o não, a escassez e a abundância, a presença e a ausência.
      As lembranças ficam como oferendas, porque a nossa memória também é um altar de honra. Obrigada por partilhar. A primeira parte do artigo também é muita rica; vale a leitura.

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