Eita que Fome Não Negocia



Segunda-feira. A primeira dos 365 dias desse capítulo. Página 15.168/41.
Eita. O ano começa sem cerimônia: na encruza, o pó se mistura ao destino.


Ẹ̀ṣù. Esse texto é dele. Ẹ̀ṣù é orixá. É filho. É voz que move o chão enquanto o céu observa. Sete vozes. Sete chaves. Sete chaves e nove primazias. Èsú é palavra quente no dendê, a língua afiada no padê. Riso breve. Cobrança justa. Aprendizado que custa… Ensina caro. Ẹ̀ṣù é caro.

Mo júbà, Ẹ̀ṣù.

Dorme nas encruzas. Não é símbolo bonito, é de fato trincado. É um, mas se divide por todos os cantos. Fala em sete tons diferentes; cada um aponta um possível, um gesto, um elo, uma decisão pequena, uma controvérsia. É dono da cancela, da porteira, da casa. Conhece as portas, as chaves e o tempo de girar a fechadura. Ele já virou a chave!


Eita que não promete trilha limpa, mas fecha passagem para ensinar sobre preço e valor. Mercado aberto sem vitrine, sem fiado, sem expectativas. Mercado aberto com fome. Eita. Que fome não negocia. Ele não negocia: come o que tiver, não deixa sobras. Pois para o novo ciclo nascer, o que era resto precisou morrer por inteiro; ele limpa o prato para que a semente não encontre mofo. Despreza o que não interessa. Porque quem chega com mentira deixa sombras, e sombra por aqui não passa da soleira. Eita que a soleira sente o peso do passo. O mercado já está aberto. Sem promessas, sem cenários montados. Eita que fome não espera desculpas.


Ele come o que chega, não acumula restos. Quem entra desalinhado deixa rastro, porque o mercado observa quem chega e como chega. Há caminhos que levam ao encontro, outros ao desgaste. Alguns afinam o passo, outros confundem o ritmo. Todos, sem exceção, devolvem ao chão da encruza. E se aprende rápido que não existem atalhos neutros: o que parece ganho fácil também será cobrado. Se alinha em atenção, em presença, em fôlego. O vento avisa, mas não empurra. A decisão anda sozinha e o movimento é feito com o corpo inteiro. Eita que não dá pra terceirizar escolha.
As cartas estão na mesa. As moedas circulam. Você reconheceu a sua? Pegou seu lugar na mesa? As moedas não têm dono até que você feche a mão; ocupar o seu lugar é o primeiro ato de quem cansou de ser figurinha no álbum do destino. Não existe gentileza para quem não conhece o valor do próprio prato. Aprende a mirar antes de ganhar, a compartilhar a mesa com brilho e ousadia, porque crescimento sem direção, cansa.


A chave já girou para definir. Porta aberta é responsabilidade. Quem atravessa precisa saber o que leva e o que espera colher, porque o chão também reconhece incoerência. Èsú é quem conhece a casa (corpo) por dentro. Eita. Quem ouviu, ouviu. Quem viu, viu.


Alguns permanecem girando no mesmo ponto, insistindo em perguntas que já tiveram resposta. Evite o drama, porque com Èsú não há romance sem cortes precisos. Ele vai te despir, te deixar nu, descobrir qualquer véu. O que Ẹ̀ṣù separou, o ano novo não ousa unir; o vazio que fica é o espaço exato onde o seu “Eu” precisa se esticar. Não há destaque para quem trata a vida com irresponsabilidade. A balança responde ao movimento.
Ele não vende sorte. Não barganha. Ele te ensina a cultivar a sorte. E a moeda é o preço para sustentar o embaraço que é a consequência das suas ações.


Eita. As moedas circulam. As cartas estão na mesa. Cada mão pega o que consegue sustentar, mas só a sua mão assina o começo deste capítulo. Sete caminhos exigem mais escuta do que pressa. Que Èsú não nos perca de vista.

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