O silêncio coerente (e o barulho que a gente é)


Janeiro chegou com aquela promessa de folha em branco, mas a verdade é que o papel já veio um pouco amassado. Segunda-feira. O café ainda está quente no copo, o vapor subindo como um rezo silencioso analisando os caos. Incrivelmente, nos últimos dias o bairro parece ter feito um pacto de mudez; um vazio raro nas ruas que me deixaria saborear o início do ano, se não fosse o som das máquinas.


Meu pai, em sua urgência de consertar o mundo ou talvez de consertar a minha procrastinação, decidiu que a semana entre o Natal e o Ano Novo era o momento ideal para reparos. O som da furadeira e da repetição de informações perfuram a minha ritualística silenciosa. Mas sou grata ao Universo. Esse é o jeito dele de dizer que nos ama e que a vida não espera a gente estar pronto. Mas também é o ruído do trabalho interrompendo o meu ensaio de despedida e paz.
Mas onde mora o silêncio, afinal?


Minha voz, às vezes, se perde na louça da pia, no tilintar monótono de uma rotina em caos que não cessa. Ela esteve na ceia de Natal do hospital, entre o cheiro de antisséptico e a esperança equilibrada em nascimentos. Ela corre, quente e violenta, no barulho do transporte público, onde o metal range e a gente se aperta para caber num destino que nem sempre escolheu.


A gente passa o dia sendo atravessado por barulhos que não são nossos. O motor do ônibus, a obra do cômodo ao lado, o som de desce e sobe, senta e levanta dos cria e até de cobranças internas. Onde fica a nossa voz nisso tudo?
Esplêndida, minha voz encontra o seu lugar de repouso no espírito, aquele silêncio que não é mudo, mas pleno, exceto esses dias pela interrupção do tom estupendo da minha mãe. Há vozes que não calam a gente por autoridade, mas por sabedoria. Agradeço meus Mestres por me calarem. Porque minha mãe, quando fala, o barulho das máquinas vira ruído de fundo. O mundo não se organiza, mas paralisa para ouvi-la.


No Reiki, aprendemos que o silêncio não é a ausência de som, mas a capacidade de ser o centro enquanto o mundo gira. É o que chamarei de silêncio coerente. Mesmo com o corpo cansado da vigília hospitalar, o que fazemos é oferecer um intervalo. Um espaço onde os ruídos não conseguem tocar e o sistema nervoso entende: o barulho externo é apenas um evento. Aqui dentro, a vida continua.


E a agenda incluiu um poema. E nessa pausa escorreu um licor entre pensamentos, umedecendo o que antes era corpo vazio. Uma fome com tempero. Uma insônia interrompida. Sem convite, sem permissão… nunca pedi antes. Me doa sal? Sem escambos. Pensar é um ato limpo? Um pensamento divinado na ponta dos dedos. O corpo foge; a mente escala. A alma corre de mim. Agora eu durmo.


Conselhos: escutar a própria pausa. Ouvir o corpo. Entre um gole de café e outro, experimente colocar as mãos sobre algum órgão. Ouvidos? Feche os olhos. Sinta o som do seu próprio sangue circulando. Ouça o ritmo da sua vida. Que clareza há na leveza? Que barulho incomoda a raiva?
E mesmo que o seu silêncio seja invadido por barulhos ou memórias pesadas, desejo que você encontre aquele ponto interno que te reconecta.


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