
Va’eira significa “E apareceu”. Não é uma aparição espetacular. É um revelar gradual. A Torá diz que D-us Se mostrou a Avraham, Itzchak e Yaacov de um modo, e agora Se revela de outro. A Cabalá ensina que a revelação nunca muda a Essência, muda a capacidade de quem percebe. O Zohar observa que Va’eira fala menos de milagres e mais de maturidade espiritual. O que em nós ainda exige sinais grandiosos para acreditar? O que já poderia ser reconhecido no simples fato de continuar respirando?
A narrativa se aprofunda no confronto entre Moshe e o faraó. Mas a leitura mística desloca o palco. O faraó não é apenas um tirano externo, é a rigidez da consciência que se recusa a escutar. O Talmud ensina que quem endurece o coração diante do outro acaba endurecendo contra si mesmo. Quantas vezes defendemos nossas crenças com tanta força que perdemos a capacidade de sentir? Em nome de quê fechamos os ouvidos? Da fé? Do medo? Do orgulho ferido?
Os salmos que acompanham este estudo expandem essa reflexão.
O Tehilim 64 fala do poder destrutivo da palavra quando usada como arma. “Afiaram suas línguas como espadas”. A Cabalá associa esse salmo ao uso inconsciente da fala para separar, ferir e dominar. Em tempos de intolerância, quantas violências são cometidas sem mãos, apenas com discursos? O que você diz quando acredita estar defendendo o sagrado? Isso aproxima ou afasta?
O Tehilim 65 muda o tom e nos lembra que a terra responde ao cuidado. “Tu visitas a terra e a regas”. O Zohar lê este salmo como a correção do excesso de julgamento. Quando há escuta, há fertilidade. No cotidiano, isso se manifesta de forma simples. Ambientes onde diferentes crenças podem coexistir respiram melhor. Relações onde ninguém precisa se anular florescem mais. Por que insistimos em transformar diferença em ameaça? O que realmente nos assusta no caminho do outro?
O Tehilim 66 é um convite ao testemunho. “Vinde e vede as obras de D-us”. Não é uma ordem de conversão, é um chamado à contemplação. Rabí Moshe Cordovero ensinava que a verdadeira espiritualidade reconhece a centelha divina em toda forma sincera de busca. A Cabalá não ensina a anular o outro, ensina a refinar a si. Quando foi que fé virou disputa? Quem ganha quando a experiência espiritual se transforma em território?
Em Va’eira, as pragas não são punições aleatórias. O Zohar explica que cada uma desmonta uma falsa divindade do Egito. A intolerância nasce quando transformamos símbolos em absolutos. Quando uma ideia ocupa o lugar da escuta. Quando um nome se torna mais importante que a vida. O texto pergunta sem dizer. O que acontece quando alguém se recusa a reconhecer a dor do outro por não compartilhar da mesma crença? O que se perde quando a fé deixa de ser ponte e vira muro?
Moshe, cansado, questiona sua missão. O povo também se fecha. A Torá diz que eles não ouviram “por causa do espírito abatido e do trabalho duro”. A Cabalá observa que quem vive oprimido tem dificuldade de escutar qualquer promessa. Isso vale para povos, famílias, relações e também para diálogos inter-religiosos. Como dialogar quando a ferida ainda sangra? Como falar de D-us sem antes cuidar da dignidade humana?
Va’eira nos ensina que revelação não é imposição. É encontro. O Ari z”l explicava que a luz só permanece onde é recebida. Talvez a tarefa espiritual deste tempo seja aprender a sustentar a própria verdade sem esmagar a do outro. Pergunta incômoda e necessária. Sua fé precisa ser defendida ou vivida? O que em você se fortalece quando acolhe, e o que enfraquece quando ataca?
Entre pragas e resistências, a Torá insiste. Há um caminho. Há um tempo. Há uma saída. Mas ela não acontece sem que algo em nós apareça primeiro. Va’eira. Que aspecto da sua consciência pede revelação agora? Onde você ainda se esconde atrás de certezas para não atravessar o encontro?
Deixo um verso saudoso e terno, em honra à ausência que ainda ensina:
Há presenças que não se despedem.
Mudam de forma.
Ficam no gesto aprendido,
na palavra que ainda aquece,
no silêncio que honra.
Quem foi amado de verdade
não parte.
Se espalha.
Que a memória seja bênção e a honra, continuidade.
Que esta semana seja atravessada por revelações suaves, escutas possíveis e respeito que cura. Shavua Tov.
Fontes:
Chabad.org, Ensinandodesiao.com.br, Zohar, Parashat Va’eira, Talmud Bavli, Ensinos do Ari z”l, Rabí Moshe Cordovero








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