
Sou corpo. Qualquer corpo.
O que passa, o que fica, o que atravessa.
Antes da massa, antes da forma, antes do barro.

O corpo já sabia dos pesos do mundo, da sede infinita, dos limites dos goles. Febre infinita. A sede transpassa a alma. Devo correr?

Meu corpo é copo antigo: lascado nas bordas, com alguns hematomas, mas ainda capaz de conter qualquer líquido.
Há corpos cheios. Transbordam expectativas, dores não digeridas, histórias que ninguém bebeu. Qual sabor tem sua bebida preferida?

Bagaço. Há corpos demais vazios e secos. Como o meu, ofereceu demais, recebeu nem o bagaço da cana. Nem o doce dos lábios. Há corpos esquecidos na mesa e na prateleira dos tempos, bebida que ninguém degustou inteira. Quanto custa a sua dose?

Eu bebo do corpo como quem respeita o último gole. Quantos goles da sua bebida para alcançar os degraus necessários para escrevermos todas sobre todas as diferenças?

Sem pressa. Sem desperdício. Os corpos não devem ser recipientes descartáveis. Lavado, raspado, renovado, vivo. Novo! Um corpo que nasce de uma navalha não bebe de lugares que não fermentam vida.

O corpo aprende cedo, mas aceita tarde. Corpo trincado no tempo.
Corpos rachados, tratados como copo alheio.
Há quem use corpos como se fossem copos de festa: enche, consome, larga. Mas todo copo guarda memória.

Vinho deixa rastro. Remédio, gosto amargo. E aquele copo de veneno que encheram não passou ileso. Mas dessa cachaça não morro.

Lavei meu corpo por dentro. Sequei. Não esterilizei o sentir, redirecionei as honras.
Corpo é altar. Quer casar nossos corpos? Corpo é abrigo. Meu corpo é andarilho. Mas todo corpo é território. Somos corpos que bebem e que são bebidos pelo tempo. Sou copo que não implora. Corpos são o que faz o sentido acontecer.

Porque viver não é se esvaziar por inteiro. (Copo vazio, estou, sou.)
É saber o que se serve.
Para quem.
E até onde.





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