
Eu tenho um corpo que habito.
Um corpo velho e fatigado.
Ossos quebrados.
Luzes afastadas.
A dignidade roubou a cena.
A mente, de tanto abrigar, também se faz lapso e ruína.
Há um momento em que o corpo deixa de ser promessa distante
e passa a ser testemunho vivo.
Testemunho do tempo.
Das perdas.
Daquilo que não voltará a nascer.
Daquilo que já não pode ser reparado, conquistado.
A doença é uma ponte estreita.
Não necessariamente conduz a algum lugar.
Às vezes, ela apenas nos coloca diante da margem
e nos obriga a reconhecer que existe um fim.
E antes dos fundamentos,
é preciso ouvir.
Ouvir o músculo que já não sustenta.
A respiração curta e silenciosa.
O coração cansado de insistir…
A mente que já não encontra abrigo nem dentro de si.
Não há promessa de cura aqui.
Há apenas o corpo.
E o corpo sabe.
Sabe quando a força diminui.
Sabe quando a luz se afasta.
Sabe quando determinadas portas não voltarão a se abrir.
Talvez a doença seja isso:
o encontro mais brutal com aquilo que passamos a vida tentando esquecer.
Que somos matéria.
Que somos tempo.
Que somos frágeis.
Que um dia o corpo que habitamos
também deixará de nos pertencer.
E então não haverá conquista,
nem explicação,
nem milagre capaz de devolver ao corpo
aquilo que o tempo levou.
Haverá somente a última escuta.
Aquele instante em que já não perguntamos
como continuar,
mas compreendemos, finalmente,
que algumas pontes não foram feitas para nos levar adiante.
Foram feitas para nos apresentar ao fim.








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