
Casaco falso – Texto de Eloisa Potrich
O lobo já não ruge. Ele sorri. Ele entra silencioso, vestido de cordialidade. Sua presença é agradável, suas palavras, medidas, sua postura, impecável. O ambiente o recebe sem desconfiança. Afinal, a primeira impressão é sempre a mais importante. E ele sabe disso. Ele veste o casaco certo.
Vivemos na era da performance, onde não importa quem se é, mas o que se aparenta ser. O casaco falso não aquece, não protege, mas engana. Ele é a promessa de um bom caráter, de uma convivência fácil, de uma presença confiável. Mas o que se veste pode ser tirado. E, aos poucos, o tecido começa a rasgar.
No início, ninguém percebe. Pequenas fissuras parecem apenas desvios momentâneos. Uma resposta mais seca, um gesto de impaciência, um olhar que não se alinha ao tom da voz. Mas a máscara, por mais bem moldada que seja, não pode sustentar o peso do tempo. O falso não resiste à repetição.
Então, a transfiguração começa. O tom amável torna-se comando. O sorriso, estratégia. A escuta atenta, um filtro seletivo para encontrar fragilidades alheias. O casaco já não veste tão bem. Suas dobras revelam um tecido mais áspero por baixo. Os outros sentem, mas demoram a nomear. Afinal, ainda se lembram da primeira impressão. A crença na bondade inicial torna difícil aceitar a realidade que agora se impõe.
Aos poucos, o encantamento se dissipa. O olhar que antes era cativante agora vigia. O tom doce se torna ríspido quando não há plateia. O que parecia simpatia revela-se cálculo. Cada gesto era um investimento, cada palavra, um ensaio. O casaco nunca foi proteção, mas camuflagem.
Quando finalmente todos enxergam, já é tarde. O lobo já estabeleceu sua posição. Ele se tornou peça fixa na engrenagem. Agora, quem se incomoda com sua presença é que parece deslocado. A inversão é cruel: o engano inicial protege o enganador, enquanto os enganados são vistos como injustos se tentam desmascará-lo.
O casaco pode ser descartado. O lobo já não precisa dele. A essa altura, ele não precisa mais fingir. Ele já ocupa seu lugar. Ele já tem poder. A farsa não é mais necessária quando a submissão já foi naturalizada. E quem percebeu tarde demais agora só pode assistir, enquanto o falso se impõe como verdadeiro.












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