Há coisas que precisam ser devolvidas


Nem tudo o que você sustenta é seu. Mas nem tudo o que alguém sustenta foi, de fato, escolha. Há sabedoria em reconhecer o que nos cabe, discernimento para devolver o que nunca nos pertenceu e humanidade para lembrar que as escolhas nascem das circunstâncias.


Os ventos de Òyá não existem para aliviar nossos ombros, mas para nos lembrar de que nem tudo o que sustentamos nos permanece.
E se aquilo que você chama de amor, lealdade ou responsabilidade nunca devesse ter se tornado um peso? Em que momento o compromisso virou prisão? Será que tentou resolver de todas as formas… ou apenas aprendeu a suportar? Quantas dores nasceram da recusa em devolver? Quantas vezes a ausência de uma decisão foi, na verdade, uma decisão?


Porque permanecer também é uma escolha. Carregar também é escolha. E devolver, quando chega o tempo certo, também é.


E, ainda assim, nem tudo é excesso ou algo que não te pertence. Às vezes, a responsabilidade é sua. Há vínculos, escolhas e consequências que não são impostas, mas assumidas com consciência. E isso também tem valor. Tomar algo para si, sustentar e permanecer quando é justo permanecer também carrega valor, não pela insistência, mas pela lucidez de reconhecer o que pode sustentar e honrar essa escolha.


Dizem os antigos que Òyá veste e despe a pele do búfalo sem jamais esquecer quem é. A pele protege, fortalece e, por um tempo, é necessária. Mas chega um momento em que continuar vestindo aquilo que já cumpriu seu propósito deixa de ser proteção e passa a ser prisão.


Òyá não pede força, pede visão. O vento não destrói, ele traz o movimento das folhas que se soltam sem resistência; tudo o que é vivo também sabe quando é o tempo de cair para seguir livre.


Devolver também é reconhecer quando uma versão de nós já cumpriu sua missão e quando outra começa. Porque a liberdade nem sempre nasce quando o peso desaparece. Às vezes, nasce quando deixamos de chamar de destino aquilo que era apenas algo que já poderia ter sido resignificado, para que a vida deixe de ser sobrevivência e volte a ser caminho.


A dignidade não está em carregar tudo, mas em seguir com o que nos pertence e ainda faz sentido.

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