Banhos de fim de ciclo: soltar e preparar o solo




Fim de ciclo é território delicado. Não pede pressa, mas pede sinceridade. Há algo que convoca a alma a recolher o que é seu, despir o que não serve e abrir espaço para o nascimento. E quando o corpo decide acompanhar o gesto, a água se torna ponte, casa, travessia.

O banho de ervas é uma das formas mais antigas de reiniciar o espírito. Ele não muda o destino, mas muda o corpo que o atravessa. O corpo responde porque reconhece o que é vivo. E o que é vivo reconhece o corpo. Há um encontro.

Entre tantos banhos de encerramento, há um trio que se sobressai quando a intenção é soltar o que pesa e preparar o solo interno para um novo ciclo mais limpo. Alecrim, Folha da Costa (saião) e folha do limoeiro formam uma magia vegetal que combina força, purificação e renovação. São ervas conhecidas nas panelas de cura, nos quintais dos saberes, tecidas pelas vovós.

O alecrim, Rosmarinus officinalis, é uma planta que parece conversar com o fogo. Seu aroma aguça, desperta, limpa a névoa interna. Em muitas casas é chamado de erva-da-alegria, símbolo de memória viva e coragem.
Como não é uma planta originária da África Ocidental, não possui nome tradicional fixo em yorùbá antigo; porém, em muitas casas de matriz recebe nome funcional segundo sua atuação, e uma forma contemporânea utilizada em léxicos populares é Ewé Alékúrímù, adotada exatamente para identificar o alecrim.
Na prática terapêutica, seus óleos essenciais atuam como estimulantes leves, melhorando foco e circulação. No campo espiritual, é folha que corta densidade, desamarra o que ficou grudado na pele e reacende a chama interna. Em doses exageradas pode elevar a pressão de pessoas hipertensas e deve ser evitado por gestantes em grandes concentrações.

A Folha da Costa, mais conhecida como saião, é planta de cura de folha grossa, macia e silenciosa. No Brasil é chamada de saião, folha-da-costa ou folha-grossa, e pertence geralmente ao gênero Kalanchoe. Em yorùbá é reconhecida como Ewé Òdúndún, folha fresca, fria, que acalma, cicatriza e desinflama.
Ewé Òdúndún é uma das folhas mais presentes em banhos de abô, devido à sua natureza de assentar e reorganizar o campo vital. Sua seiva é usada em curas tradicionais para acalmar pele irritada, aliviar calor interno e “trazer o corpo de volta para casa”. É planta de base, de equilíbrio, de aterramento suave.

A folha do limoeiro, Citrus limon, traz o sopro ácido que limpa, corta e abre passagem. Seja chamado de limoeiro, limoeiro-siciliano, limão-galego ou limão-verdadeiro, suas folhas carregam o mesmo princípio aromático que sentimos no fruto.
Em yorùbá, registros lexicais contemporâneos apontam Ewé Òrómbọ e também a forma modernizada lẹmọnù (lemão) para a família dos cítricos. Ambas são aceitas, dependendo da tradição de referência.
A ciência aponta seus benefícios como leve antioxidante, purificador e estimulante de bem-estar. Na energia tradicional, folha de limoeiro é usada para dispersar invejas, limpar o campo emocional e refrescar o espírito que terminou um ciclo cansado. Pode irritar peles muito sensíveis e não deve ser usada por quem tem alergia a cítricos.

Essas três plantas, quando reunidas, criam uma espécie de sopro renovador. Alecrim esquenta e desperta. A folha-da-costa acolhe e sela. Limoeiro varre e ilumina. O banho desse trio funciona como um ritual para soltar os fios que amarram o corpo às tristezas antigas e devolve ao espírito a sensação de que ainda há espaço para o novo.

O banho, porém, começa muito antes da água tocar o corpo. Ele começa na intenção. No ofó. A palavra falada com verdade. É o sopro que informa às ervas o que você deseja dissolver, curar ou iniciar. Sem ofó, o banho é cheiro. Com ofó, o banho é portal.

O preparo deve ser frio. Uma maceração intensa e viva. Coloque as folhas em uma bacia com água fresca. Esmague com as mãos, massageando a planta até ela entregar seu corpo, seu cheiro, sua medicina. As mãos ativam o que o fogo destruiria.
Depois, barrofe um pouco de gin. Apenas um fio. O gin desperta a força aromática das ervas, quebra densidades emocionais profundas e potencializa a abertura de caminhos. Não é para perfumar. É para acordar o campo vibratório. Em seguida, diga seu ofó, mesmo que seja simples. “Eu solto o que não me pertence. Eu renasço. Eu caminho com meus passos firmes.”

Quando estiver pronto, leve o banho ao corpo inteiro. Da cabeça aos pés. A cabeça recebe o que abre consciência. O corpo recebe o que purifica. Os membros recebem o que direciona caminho.
Deixe escorrer devagar. Sinta o velho descendo pelas costas. Sinta o novo se aproximando pela nuca.

Deixe secar ao natural ou toque a toalha com delicadeza. Não esfregue. O banho continua trabalhando por horas. Coloque uma roupa clara e, se possível, descanse.

Evite banhos de ervas em feridas abertas, alergias desconhecidas, condições cardíacas sensíveis, uso de medicamentos fotossensibilizantes ou gestação sem orientação profissional. Cada corpo é um território. Respeitar isso também é magia.

E antes que o ciclo se encerre, existe um último guardião da casa que merece ser lembrado. O alho. Allium sativum. Tão simples que o mundo esquece sua força. Conhecido popularmente como alho, alho-roxo, alho-branco, cabeça de alho ou dente de alho, recebe na fala yorùbá da diáspora formas como Ayó pupa e, em algumas tradições, Ewé Ayuu. Ayó pupa indica literalmente “alho vermelho/roxo” e é usado em listas populares de ewé; a grafia e o uso variam conforme a casa e a região. Na medicina natural é antimicrobiano, antiviral, antifúngico. Na tradição popular expulsa maus-olhados, corta vibrações densas e purifica ambientes carregados pelo movimento do ano. Para limpar a casa, basta ferver alguns dentes de alho com casca, deixar a água amornar e usar para lavar a entrada, batentes, pisos ou cantos onde a energia costuma se acumular. O cheiro forte não é agressão. É aviso. O alho anuncia que a casa está sendo resguardada. Contraindicado para pessoas muito sensíveis ao odor ou com alergia ao bulbo. Não deve ser usado em superfícies que mancham facilmente.

No fim, limpeza não é esvaziamento. É preparação. É o corpo dizendo ao tempo que está pronto para recomeçar. É a memória viva da medicina original, aquela que fervia na panela de barro e crescia nos quintais. É a mão que cura, a água que leva e a fé que instala um novo chão dentro de quem ousa renascer.

Fontes:
Bibliografia de fitoterapia de Matos, F. J. de Abreu.
Plant Medicines in Practice de Chiej, R.
Compêndio de plantas medicinais da ANVISA.
Dados etnobotânicos de comunidades afro-brasileiras e registros de etnofarmacologia yorùbá.

2 comentários em “Banhos de fim de ciclo: soltar e preparar o solo

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    1. Perfeito. Admiro Spinoza por sua capacidade de beber e comer de muitas fontes, Maimônides, as vertentes místicas judaicas, a ciência e a matemática. Pensar em D-us de forma lógica é fundamental para um pensamento crítico e evolutivo do ser humano. Se D-us existe, eu quero continuar aqui, sendo ouvida por um cosmo onde toda lei é Sua. Obrigada por sua visita, Gustavo.

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