Chukat — A Água de Miriam


Há semanas em que a Torah nos oferece respostas. Há semanas em que ela nos faz rever as perguntas. Chukat pertence à segunda categoria.

Talvez seja por isso que ela comece justamente com um dos maiores mistérios das Escrituras, a Novilha Vermelha. Um ritual que purifica os impuros e, ao mesmo tempo, torna impuros aqueles que realizam a purificação. Como compreender algo que parece contradizer a própria lógica?
E quem disse que tudo o que sustenta a vida precisa ser compreendido?

Vivemos numa época em que tudo parece carecer de explicações. Queremos saber o motivo da demora, o porquê da perda, a origem da porta fechada, o sentido da enfermidade, a razão da tristeza que nos visita sem convite.
Mas e se algumas perguntas não estiverem esperando respostas?
E se estiverem esperando transmutação?

O rabino Abraham Joshua Heschel escreveu que a vida espiritual começa quando aceitamos ser surpreendidos pelo oculto. A Cabalá vai ainda mais longe ao sugerir que existem verdades que não chegam ao mundo para serem explicadas, mas para serem habitadas.

Nem toda verdade chega pela cabeça. Algumas precisam atravessar os ossos.

Talvez por isso a Torah nos encontre tantas vezes em territórios onde a lógica para de caminhar e apenas a experiência continua. Há perguntas que não amadurecem através de respostas. Amadurecem através da vivência.

Quantas vezes brigamos com o tempo?
Quantas vezes tentamos arrancar uma resposta antes dela chegar?
Quantas vezes confundimos compreensão com controle?

Há uma forma muito sutil de arrogância que se esconde na necessidade de entender tudo. Como se o universo devesse satisfações permanentes à nossa pequena perspectiva. Como se a vida tivesse a obrigação de corresponder às expectativas que criamos para ela.

E então, quase sem aviso, Chukat nos conduz à morte de Miriam.

A morte de Miriam abre uma ferida no peito do povo, e imediatamente a água desaparece. A tradição nos conta que o poço que acompanhava Israel no deserto existia pelo mérito dela. Miriam não era apenas a irmã que observava de longe às margens do Nilo; ela era o próprio fluxo, a intuição, a conexão profunda com o ritmo da vida. Seu propósito era sustentar a sede de uma nação inteira com uma função única que ninguém mais poderia replicar.

Muitas vezes a história concentra seu olhar no erro, na murmuração que a isolou temporariamente. Mas qual de nós não se perde, vez ou outra, na tentativa de proteger quem ama? Qual de nós atravessa a existência sem confundir zelo com excesso, cuidado com controle?

Reduzir Miriam ao seu tropeço seria ignorar décadas de fidelidade, coragem e visão.

Antes de Moisés abrir o mar, foi Miriam quem preservou a esperança. Antes de existir uma travessia, foi ela quem acreditou que o caminho seria possível. Os sábios observam que ela recebeu o nome Miriam a partir de uma raiz associada à amargura, mas sua vida inteira foi uma recusa em permitir que a amargura tivesse a última palavra.

A alma de Miriam era água viva.

Não por acaso, um antigo provérbio africano ensina que “o rio não bebe sua própria água”. Miriam viveu exatamente assim. Seu propósito não era saciar a própria sede, mas sustentar a sede coletiva. Seu mérito não estava no que acumulava, mas no que fazia circular. Talvez a verdadeira prosperidade sempre tenha sido mais parecida com um rio do que com um reservatório.

Quando ela parte, o deserto se torna apenas areia seca, revelando uma verdade desconfortável: existem presenças cuja importância só compreendemos quando deixam de sustentar silenciosamente aquilo que julgávamos permanente.

Outro provérbio  diz que “quando o poço seca, lembramos o valor da água”. É uma verdade dolorosa. Há pessoas que se tornam tão presentes em nossa vida que passamos a confundi-las com a paisagem. Só percebemos que eram fonte quando a sede aparece.

Quem são as Miriams da sua vida?
Quem sustentou você em períodos dos quais mal se lembra?
Quem garantiu seu chão sem receber reconhecimento?
Quem cuidou do que ninguém viu?

Talvez seja por isso que a água desaparece junto com ela. A Torah parece nos ensinar que cada pessoa possui uma função única no tecido da criação. Nem Moisés poderia substituir Miriam. Nem Aarão poderia substituir Moisés. Nem a luz da lua compete com a do sol. Nem você foi criado para ocupar o lugar de outra pessoa.

O rabino Jonathan Sacks escreveu que a grandeza não consiste em ser melhor que os outros, mas em ser aquilo que somente você foi chamado a ser.
Mas nós acreditamos nisso?
Ou seguimos desperdiçando anos tentando viver destinos que não são nossos?
O que floresceria em nosso jardim se honrássemos nossa própria vocação?

Logo depois, Moisés se encontra diante da rocha. A água existe. A necessidade existe. O povo existe. Mas algo mudou.

D-us pede uma ação. Moisés realiza outra.
A água sai, mas a ferida permanece.

Quantas vezes insistimos em aplicar a força e o ego onde a escuta seria suficiente?
Quantas vezes repetimos métodos antigos para desafios novos?
Quantas vezes batemos na vida quando ela está apenas esperando uma conversa?

Talvez o problema não seja a falta de fé.
Talvez seja a dificuldade de perceber que cada estação pede uma linguagem diferente.

E então os Salmos desta semana chegam como quem recolhe a água perdida de Miriam e a transforma em bênção.

O Salmo 133 declara:
“Quão bom e quão suave é que os irmãos habitem em união.”
Mas essa união não é a ausência de dúvidas. Não é uniformidade. Não é concordância absoluta. É a capacidade de partilhar o mesmo mistério.

O salmista compara essa bênção ao orvalho que desce sobre as montanhas. O orvalho não apresenta explicações. Não exige compreensão. Não pede licença. Simplesmente chega e fecunda a terra.

Não é essa a própria linguagem da graça?
Não é assim que D-us age tantas vezes?

Silenciosamente. Pacientemente.
Sem se justificar. Sem se impor.

A sabedoria ancestral nos lembra que a montanha não inveja o rio e o rio não inveja a montanha. Cada um cumpre o destino que D-us lhe confiou. O orvalho não tenta ser nascente. A nascente não tenta ser mar.

A bênção nasce quando cada coisa aceita sua própria natureza.

O Salmo 132 aprofunda essa busca ao falar do desejo de encontrar uma morada para a Presença Divina. Davi jura não conceder repouso aos seus olhos até encontrar um lugar para o Forte de Jacó.

Mas onde fica essa morada?
Em qual templo? Em qual montanha?
Em qual doutrina?
Ou será que o nosso solo sempre esteve mais próxima do que imaginamos?

O Baal Shem Tov ensinava que D-us está onde o deixamos entrar. E talvez não exista porta mais difícil de abrir do que aquela construída pela ilusão de que precisamos compreender tudo.

Chukat nos convida a uma humildade rara.

A humildade de reconhecer que nem toda causa justa nasce de uma intenção justa.
A humildade de aceitar que cada pessoa possui uma função única.
A humildade de admitir que nem tudo na vida possui explicação.

Um ensinamento associado à tradição de Ifá afirma que quem conhece a nascente não teme as curvas do rio.

Talvez seja justamente isso que Chukat esteja tentando nos ensinar.

A fé não elimina as curvas. Não elimina o deserto. Não elimina os mistérios. Ela apenas nos recorda da Fonte.

Prosperidade, então, talvez seja outra coisa.
Talvez prosperidade não seja o acúmulo do que se entende, mas a circulação da luz que se recebe.

Talvez prosperidade seja tornar-se canal.
Como Miriam. Como o poço. Como o orvalho dos Salmos. Como a água que não retém nada para si e, justamente por isso, nunca deixa de correr.

Se cada pessoa possui uma função única, você já parou para se perguntar qual é o vazio que só a sua existência preenche nesse plano?
Qual é a água que lhe cabe oferecer?
Qual é o poço que D-us confiou aos seus cuidados?

Quando aceitamos que nem tudo na vida tem explicação, deixamos de travar batalhas inúteis e passamos a caminhar com ele.

Que nesta semana a gente saiba honrar a água de Miriam que ainda corre em nossas veias. Que a gente reconheça os poços que nos sustentaram e os ancestrais que abriram caminhos antes de nós. E que a poesia dos Salmos nos ensine a repousar, para que a mente, cansada finalmente se curve ao coração.

Talvez Chukat tenha sido escrita para nos ensinar a caminhar com os mistérios da vida.
Como quem segue pelo deserto confiando que a água aparecerá no tempo certo.

Talvez aí você conheça a verdadeira fartura.

Inté

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