Os Salmos desta semana parecem acompanhar Ki Tavo justamente nesse território de escolha.
O Salmo 141 pede uma guarda para a boca. Não seria uma oração pequena para quem está tentando construir uma vida nova. Quantas coisas estragamos porque não soubemos guardar a palavra? Quantas relações foram feridas por uma verdade dita sem cuidado, por uma mentira conveniente ou por aquela necessidade tão humana de vencer a última conversa?
O Salmo 142 nos coloca na caverna, lembrando que nem toda pessoa que chegou a uma nova casa já se sente protegida dentro dela. Há quem tenha mudado de vida sem conseguir mudar o medo. Há quem tenha conquistado liberdade e ainda peça licença para existir.
O Salmo 143 pede: “Ensina-me”. Talvez seja uma das formas mais bonitas de oração. Não “dê-me tudo o que quero”, mas ensina-me a reconhecer o caminho.
O Salmo 144 nos devolve às mãos, àquilo que fazemos com a matéria que recebemos. Existe uma sabedoria muito antiga nessa imagem: não basta receber o grão. É preciso saber transformá-lo.
E então chegamos ao Salmo 145, onde o louvor se amplia até alcançar “toda carne”. A espiritualidade cresce quando deixa de ser uma propriedade particular. D-us não cabe na nossa preferência, no nosso grupo, na nossa certeza. A bênção não deveria nos tornar menores por dentro, mais fechados, mais convencidos de que fomos escolhidos contra alguém.
O Salmo 146 nos lembra da fragilidade dos poderosos. Talvez porque nenhuma casa deva ser construída sobre aquilo que pode desaparecer amanhã.
Poder passa. Dinheiro muda de mãos. Prestígio envelhece. Aparência muda. Cargo termina.
Mas as escolhas que fazemos enquanto tudo isso acontece deixam marcas.
É por isso que Ki Tavo me parece menos uma parashat sobre chegar e muito mais uma parashat sobre saber habitar.
Habitar a prosperidade sem se tornar arrogante. Habitar a casa sem transformá-la em fortaleza. Habitar a mesa sem esquecer quem está do lado de fora. Habitar a tradição sem abandonar o pensamento. Habitar a ancestralidade sem transformar herança em prisão. Habitar a própria vida sem terceirizar a responsabilidade pelas escolhas.
E talvez seja essa a grande pergunta para esta semana:
se a porta que você tanto desejou já está aberta, você sabe quem quer ser dentro dela?
Estamos entrando no período de Elul, aproximando-nos de Rosh Hashaná. A próxima parashat já nos levará para um território ainda mais próximo desses preparativos. O calendário começa a apertar suavemente o coração, não para produzir medo, mas para pedir atenção.
Olhe para a casa.
Olhe para a mesa.
Olhe para os frutos.
Olhe para as pessoas.
Olhe para aquilo que você vem escrevendo.
Talvez não seja necessário começar um livro novo.
Talvez baste pegar um lápis.
E escolher melhor a próxima frase.
Que sua vida seja próspera e farta.
Que nunca lhe falte pão, nem discernimento para saber quem merece sentar à sua mesa.
Que seus ancestrais estejam em paz e que a força daqueles que vieram antes encontre em você uma continuação digna, sem que você precise repetir tudo o que herdou.
Que você saiba reconhecer as bênçãos que chegam como semente. Que tenha mãos para cultivá-las, coragem para protegê-las e sabedoria para compartilhá-las.
Que você saiba receber sem acreditar que tudo lhe pertence.
Que saiba repartir sem transformar generosidade em humilhação.
Que saiba amar sem abandonar seus limites.
E que escreva sua história a lápis.
Para poder corrigir.
Para poder recomeçar.
Para poder escolher outra palavra quando a antiga já não disser a verdade.
Porque algumas salvações não chegam prontas do céu.
Algumas começam exatamente onde colocamos o lápis sobre o papel e decidimos escrever de outro modo.
E, sobretudo, que sua alma seja salva de ti.
E antes de fechar nosso livro por algumas semanas, uma pequena nota para os que acompanham também o caminho dos Salmos: eu não esqueci dos quatro últimos.
Os Salmos 147, 148, 149 e 150 ficaram à espera. Eles fariam parte dos estudos seguintes, mas como nosso próximo encontro só acontecerá em outubro, quando o ciclo de leitura das parashiot recomeçar, não quis deixá-los desaparecer no silêncio.
Talvez seja bonito que permaneçam assim, por enquanto, como uma última janela aberta.
O 147 olha para Jerusalém, para os que estão feridos, para as estrelas que recebem seus nomes e para a delicadeza de quem reúne os dispersos.
O 148 chama o céu e a terra para o mesmo louvor. Sol, lua, estrelas, montanhas, árvores, animais e seres humanos aparecem dentro de uma mesma respiração. É difícil não perceber aí uma espiritualidade em que o sagrado não pertence apenas ao homem, nem a uma única língua, nem a uma única forma de oração.
O 149 devolve a alegria ao corpo. Há canto, dança, movimento, celebração. A espiritualidade também pode ter pés, mãos, voz e pele. Nem tudo precisa ser compreendido para ser vivido.
E então chegamos ao Salmo 150.
Depois de tantas perguntas, tantas súplicas, tantas cavernas, guerras, medos, pedidos de proteção, escolhas e buscas, o Livro dos Salmos termina com uma convocação quase impossível de simplificar: louvai.
Com o sopro. Com a harpa. Com a lira. Com o tambor. Com as cordas. Com as flautas. Com tudo aquilo que tiver fôlego.
Talvez seja uma maneira bonita de encerrar este ciclo.
Começamos pedindo que D-us guardasse nossa boca.
Terminamos lembrando que temos uma boca para cantar.
Começamos perguntando o que deveria permanecer do lado de dentro.
Terminamos abrindo as janelas para que o louvor encontre o mundo.
E talvez essa seja uma última lembrança para levar para Rosh Hashaná: a vida não precisa estar perfeitamente resolvida para ser celebrada.
Há perguntas sem resposta. Há portas ainda fechadas. Há frutos que ainda não amadureceram. Há histórias que continuam sendo escritas a lápis.
Ainda assim, há fôlego.
E enquanto houver fôlego, há alguma coisa que podemos fazer com ele.
Halelu-Yah.
Na próxima semana não teremos nosso estudo. Faço aqui uma pequena pausa, como quem fecha o livro por algumas semanas sem abandonar a história. Retornaremos em outubro, quando o ciclo de leitura das parashiot recomeçar, trazendo novas perguntas, outras portas e, espero, um pouco mais de sabedoria para colocar à mesa.
Até lá, eu já deixo meu desejo de um feliz, alegre e doce Rosh Hashaná.
Que seja um novo ciclo de lucidez, prosperidade, saúde, bons encontros e escolhas mais conscientes. Que a doçura não seja apenas aquilo que desejamos receber, mas também aquilo que aprendemos a oferecer sem nos abandonar no processo.
E que você seja definitivamente selado para o bem.
Shaná Tová Umetuká.
Inté.








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