Café Mofado

Ouço a televisão aprisionada na sala de estar. E estamos. Estamos trancafiadas uma na outra. Que tédio!

Estou estupidamente agarrada aos estímulos desinteressados e descontentes destes tempos da vida. Tenho listas pendentes, e-mails não respondidos e encaminhados para a lixeira, leituras nulas, bilhetes suspensos, estudos nos arquivos, documentos ausentes, habilitações nunca retiradas e estacionadas, tão quanto estou neste móvel produzido por formas estranhas que dei o nome de desgostos.

Tenho versos presos na colher de chá, afogados numa xícara de café velho e ruim, ambos com cheiro de pensamentos e intentos mofados, com gosto de barata morta (não, não experimentei baratas). Versos à afogar. Afoga-me! Estou afogada em café obsoleto. Versos jogados no fundo da xícara. Versos modificados, bolorentos como pão velho e seco. Versos previstos e vistos. Distraídos. Extraídos de sonhos em exaustivas palavras jogadas aos ventos. O quê?

Exaustivos são os pesadelos vivos, os reais. Estou descrente, comigo e com outros. Não com os versos, não com palavras, sentires ou gestos, não com o café, não com a vida, comigo. Só.

Os tempos mudaram, mudarão mais ainda. Estamos contentes? Tem pó de café que machuca o paladar da alma, esse no fundo da xícara é um. Um misto de aroma que invade setores, causando mal-estar em qualquer ambiente, seja o da sala de estar ou o do pão do espírito.

E estamos. No mal-estar deste corpo que abriga e obriga. Estamos?

Estamos distraindo a vida, o tempo e o amor, com aromas agradáveis aos corpos mentais e espirituais. Retirando queixas e deixas. Como na arte das gueixas, a distração é intencional, mas os objetivos são audaciosos. Seja mais que distrações, mas se for, seja audaz.

O café permanece e olha com olhos ofendidos e severa repreensão. Os versos não vão morrer, eu sei. Madrugada qualquer, ressuscito com vela, café fresco e oração. Perdão.

A temporada dos ventos chegou mais cedo e estou estacionada nos móveis que inventei e não movimentam. As janelas do sobrado estão molhadas, hora por garoa grossa que vem das bandas sudoeste, vez outra, por brisa úmida que vem do mar. Peça desculpas ao povo do mar!

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