Desejo do Dia: A Cadeira.

Inspiração: Poltrona Jangada, por Jean Gillon.

Desejei uma cadeira. Por uns instantes. Bom, tenho muitos desejos, e quem acompanha minhas escritas sabe que a maioria termina no texto seguinte; esse terminou nos números.

O que eu faria com uma cadeira de setenta mil? Sei lá. Passei uns segundos refletindo tolices… Ela viraria parceira de dança, seria o assento para terminar a novela mexicana, cancelada para assistir um dorama clichê, ou um divã de inspirações para poesias mudas… Uma modelo fotográfica de artístico nu? Não. Ela ficaria ali, em frente ao espelho, duplicando sua beleza. Ou talvez virasse assento para outras coisas… para uma noite romântica cheia de rock e massagens tailandesas.

Uh, massagem, precisava hoje. Sei lá. Já estou flertando com a cadeira; então devo tomar um cappuccino com ela? Um passeio turístico? Voo para o Egito, mergulho em Noronha, água com laranja na Baía dos Golfinhos? Não. Sair das raízes donde ela veio e degustar vinhos do sul desse país brasileiro, sentar no meio do vinhedo enquanto contabilizo todos os zeros investidos. Putz, a cadeira vale um carro! Ah, mas não dirijo, não piloto nem meu fogão.

Estou doando; alguém quer? Cem mil dinheiros na tela e outros setenta mil na cadeira. Tenho uns bolívares no fundo da gaveta, outras moedas antigas, uma gaita Hering Blues de 1925, uma Monark Brisa com o quadro quebrado; dólares não tenho, furtaram. Acho que devo fazer um escambo por um boneco Daruma e solicitar algum desejo. Um notável, que não dure só alguns dias ou textos.

A cadeira é um desses desejos tão passageiros quanto a vontade de exercitar o corpo para ficar disposta. É bom. Tem um lado bom: a cadeira não virá para casa, mas ainda posso criar ânimo e disposição para ficar saudável.

Quanto vale a criatividade do design ou as mãos mágicas do artesão? Quanto valem esforços, investimentos, renúncias, ausências? É o tipo de pergunta que o outro nunca poderá responder com simples zeros e nenhuma experiência sensitiva ou vivida.

Cadeiras, mesas, garrafas, roldanas, roupas para as camas, escritos, músicas, comidas especiais para os sábados ou vinhos fermentados… Qual o valor? O quanto residimos o outro para medir valor? Como valorizar sem esbarrar em conceitos que não são nossos? Apreciações!

Poltrona Jangada, por Jean Gillon.

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