Pano de Saco


Não sei passar tecidos, não entendo grid. Guardanapos com lembretes? Do tempo? Da paz? Do amor, do Amor… Dos caminhos? Das ilusões… Dos credos? Dos sonhos? Das fomes. Das roupas lavando na máquina… Das sedes? Das roupas secando no varal? Dos pães que não sei fazer… Dos vinhos que deixo de beber? Das orações ausentes? Do corpo presente. Do coração lento, morno, morto…

Raízes doentes, caule seco, folhas agredidas, flores murchas, frutos inexistentes. Como assim, numa terra sendo arada? Ainda nem lançou as sementes, como pode danificar a planta? [¡Princípios!] Anota! – Espírito, tira as vestes! Tira as vestes, Cassie. Lembra dos navios de Társis. Tira tudo. Vista-se com pano de saco, com pano de saco com pano de saco… E saia em paz, com alegria, com os cânticos das montanhas, com as palmas das árvores, com o aroma das flores, com os ventos impetuosos e com suas folhas viçosas. Saia. Saia nua, saia sua, saia na galé. Saia só desse navio. Só. Só saia, Cassie.

Revolva a vida, os sonhos, os remos dos Arvades, os ossos; recupere os ossos, Cassie. Porque esqueleto calcifica, mas precisa deambular. Saia, mas saia com a roda do leme ajustada, iça o pavilhão e prenda os lenços, os lençóis, os lembretes, os vistos, os números escritos nos sacos de pães… Saia, sobreviva, viva e medita… nos olhos, nos lábios, nos ouvidos, nas mãos que ditam, nas anotações, nos livros… medita nas profundezas, nos silêncios gritantes que ecoam das cinzas desse mar de náufragos e supliciados.

O que dizem as anotações? Marujo, o que dizem as tuas rasuras, amarguras e armaduras? O que diz o sorriso? O olhar? E as dos leitores? A dos autores? E as minhas? [Quero reler as placas que li, queria ouvir mais que olhos, mais que olhar…]. Ler as letras e lágrimas bordadas em travesseiros de sacos, os que nos fazem dormir mais serenos e vivos… serenos… assistidos… plenos… vivos! [Que letras, que nome? – putz, que memória torcida].

Mas é um sono seco, Cassie, em uma insônia molhada, quase asfixiada nesta secura de palavras não emitidas por mim… pra mim… ou pra nós.

E as Defesas mandam mais lembretes: Em baixas… bebam água! Água, Céus! Água para os corpos, água para beber, água para o café, água para os lençóis… água! Água para mergulhar azeites, ferros, joias e tiranias, água para criar sal e reger a vida, água para a dileção e água para os beijos (traições) da noite – os sonhos!


Trazes os sonhos sem beijos, Daniel. Sem fornalhas e leões, só os vistos e sabidos… eu quero o sono e a oração e um ferro de passar com brasa e carvão. Mas ainda é um navio sem mastro, a todo vapor num oceano sem destino… a todo vapor neste tempo de pedras e ossos secos, cruzes, batuques, velas e ossos do ofício.

Um ferro, Cassie! Um ferro e um pano de saco! Um ferro em brasa viva que cinja na pele todos os vistos, revistos e não vistos. Um ferro que transpasse os panos de saco dos corpos, pois já basta de lemes amarfanhados da vida. Inteiramente…

Imagem: Pinterest

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