Ele, perfume da mata e saudade do mar



Ela não fugiu dos olhos dele.
Deixou-se ser chamada, como se o próprio corpo soubesse o idioma do desejo suspenso.
Como o mar que seduz o navegante com promessas de naufrágio doce.
Como o som dos atabaques que reverberam na pele antes de tocarem os ouvidos.
Era assim que ela sentia o chamado dele: um eco primal, antigo, inevitável.

A lua sabia.
Os astros, conspiradores magnéticos, sabiam.
Ela seguia desnuda — não de roupas, mas de delicadezas.
Seguia guiada por uma fé que mora entre os seios e as entranhas,
onde o coração se despe e a alma se ajoelha sem véu,
sob um céu que só os amantes sagrados conhecem.
Onde os deuses cochicham com gosto.

Os olhos dele, cartas escritas em água morna e fogo brando,
desafiavam a leitura — e mesmo assim ela lia.
Lia com o ventre.
Com a memória.
Com a herança dos que dançavam em volta do fogo e cantavam amores sem posse.
Era um idioma de ancestralidade, inteiro e encantado na mesma medida.

Ele era jovem, mas guardava anciãos nos gestos.
E ela, velha de outras vidas, sorria.
A flecha dele não feria — ela apontava.
Apontava para o limiar onde o toque não era necessário,
porque bastava imaginar o que o tambor da pele poderia fazer.
Ali, só de se saberem, já estavam em transe.

Ele, feito de maré cheia, deixava-se arrastar.
E ela, feito rio, aprendia o caminho para o sal.
Os olhos dela diziam mais do que palavras jamais ousariam.
E ele, feita de silêncio, escutava.

Resistir?
Ela nem tentou.
Era mais bonito se deixar nadar.
Era mais bonito mergulhar nas profundezas do próprio corpo
como quem descobre que o universo tem cheiro,
e que o cheiro dele estava em tudo que florescia nela.

Deixe uma resposta

Com tecnologia WordPress.com.

Acima ↑

Descubra mais sobre Tem Flor

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo