A estação muda sem pedir licença. O vento muda de direção antes que os nossos olhos percebam. A terra sabe antes da gente. Talvez seja por isso que essa porção seja lida justamente num tempo de transformação. Nem toda mudança começa quando a enxergamos. Muitas começam quando ainda insistimos em chamar de obstáculo aquilo que já é proteção.
Balak olha para Israel e vê ameaça. O receio costuma fabricar inimigos antes mesmo dos fatos. Quantas guerras nasceram de uma imaginação adoecida? Quantas vezes chamamos de perigo aquilo que apenas espelha nossa insegurança?
Balak não buscava uma resposta de D-us. Buscava alguém que assinasse seu receio. Há uma diferença profunda entre consultar a sabedoria e contratar a confirmação. O sacerdócio existe para aconselhar e discernir a vida, não para confirmar nossas certezas. Toda vez que procuramos apenas quem pensa como nós, ou ignoramos o que nos foi revelado e orientado, deixamos de fazer perguntas e passamos a fazer um discurso para nós mesmos.
Talvez essa seja uma das primeiras advertências desta parashá. Antes de perguntar “quem está certo?”, talvez devêssemos perguntar: “o que realmente estou procurando?”. Quero mudança ou apenas uma bênção para aquilo que já decidi? Quero que a verdade me transforme ou apenas que ela concorde comigo?
É então que entra Balaão. Um homem dotado de visão espiritual, mas incapaz de ver o essencial.
A Cabalá faz uma pergunta: de que adianta enxergar os mundos ocultos se a vaidade humana continua governando o mundo interior?
O rabino Jonathan Sacks escreveu que a verdadeira tragédia de Balaão não era a ausência de dons, mas o uso equivocado deles. Nem toda inteligência é sabedoria. Nem toda espiritualidade é consciência. Nem toda experiência mística produz caráter.
Em Ifá existe um ensinamento que ecoa como resposta:
“Ahọ́n ni ń pa ènìyàn; ahọ́n sì ni ń gbà á.”
A língua pode matar uma pessoa; a língua também pode salvá-la.
Estamos usando nossa voz para servir à vida ou à morte?
Quantas palavras pronunciamos apenas para vencer um opositor? Quantas foram ditas para alimentar o orgulho? Quantas nasceram do silêncio? E quantas nasceram da vaidade?
A Torah conta que D-us já havia advertido Balaão:
“Não amaldiçoe este povo, pois ele é abençoado.”
Ainda assim, ele insiste. Por quê?
Porque o ego acredita que pode negociar com a Verdade.
Mas há uma lei espiritual que antecede qualquer desejo humano. A Cabalá chama isso de alinhamento. Ifá talvez chamasse de respeito ao Àyànmọ́, o destino que não deve ser violentado.
Aprenda a não violentar o próprio destino.
Essa frase continua voltando para mim como um rio que conhece seu caminho.
Talvez seja exatamente isso que Balaão tentou fazer. Talvez seja exatamente isso que também fazemos quando insistimos em abrir portas que D-us fechou. Ou quando forçamos relações. Ou quando queremos colher antes da estação. Ou quando confundimos controle com confiança.
No meio do caminho acontece uma das cenas mais extraordinárias da Torá.
Quem vê o mensageiro de D-us não é o profeta. É a jumenta.
Que ironia delicada. Aquele que dizia enxergar o invisível não percebe o anjo com a espada desembainhada. O animal, sim.
O Midrash observa que D-us, às vezes, retira a visão dos sábios para lembrar que toda percepção continua sendo um presente.
Quem está realmente desperto?
Quem acumula conhecimento?
Ou quem permanece disponível?
Será que nossa arrogância intelectual nos impede de perceber aquilo que a simplicidade já compreendeu?
Será que estamos tão ocupados defendendo nossas certezas que perdemos os sinais colocados no caminho?
Quantas vezes chamamos de atraso aquilo que salvou nossa vida?
Quantas portas fechadas impediram um sofrimento que jamais conheceremos?
Quantos “nãos” eram apenas outra forma de cuidado?
Talvez alguns dos maiores milagres aconteçam exatamente nas interrupções. Martin Buber dizia que toda vida verdadeira é encontro. Mas como encontrar a presença de D-us se atravessamos os dias sem realmente estarmos presentes?
A espada do anjo não representa apenas juízo. Ela também representa discernimento.
Há pessoas que não serão escolhidas. Há caminhos que simplesmente deixaram de ser nossos. Insistir neles é lutar contra a própria bênção.
Depois de três tentativas, Balaão abre a boca para amaldiçoar. E só consegue abençoar.
Existe uma beleza quase insuportável nessa cena. Porque ela nos lembra que nenhuma palavra prospera quando não encontra solo fértil. E talvez aqui esteja um dos maiores segredos…
Não basta perguntar quem fala.
É preciso perguntar quem escuta.
Que tipo de terra existe dentro de nós?
Solo endurecido pelo ressentimento?
Solo encharcado pelo receio?
Ou terra preparada para receber sementes?
Rabbi Nachman de Breslov dizia que o mundo inteiro é uma ponte estreita, e o essencial é não viver dominado pelo receio.
Balak é um homem governado pelo receio.
Balaão é um homem governado pelo excesso de si.
Israel, apesar de suas falhas, continua caminhando sustentado por uma promessa.
A diferença nunca esteve na perfeição. Sempre esteve na direção.
Então acontece uma das declarações mais bonitas de toda a Torá:
“Quão belas são as tuas tendas, ó Jacó; as tuas moradas, ó Israel.”
Os sábios observam que Balaão não elogia a força militar de Israel, nem sua riqueza, nem sua organização. Ele enxerga as tendas. Os lares. A forma como cada entrada era posicionada para preservar a dignidade do vizinho. A bênção nasce da ética cotidiana. Antes de existir um povo forte, existia um povo que aprendia a respeitar o espaço do outro. O Construtor do Universo não tem preferidos. O que Ele sustenta é um modo de viver que protege a vida.
Não é exatamente isso que D-us faz conosco?
Transforma cinzas em adubo. Fracassos em sabedoria. Lágrimas em nascente. Exílio em caminho… caminha, caminhador!
E vamos aos Salmos desta semana…
O Salmo 134 nos convida a erguer as mãos durante a noite. Não apenas quando tudo está claro. Também quando ainda não entendemos. A verdadeira confiança não nasce da ausência de perguntas, mas da coragem de continuar.
O Salmo 135 recorda que D-us faz tudo conforme Sua vontade nos céus e na terra. Há um convite silencioso à humildade. Nem tudo precisa passar pelo nosso controle para continuar sendo cuidado.
E o Salmo 136 repete vinte e seis vezes o mesmo refrão:
“Porque Sua misericórdia dura para sempre.”
Vinte e seis. O valor numérico do Nome Sagrado. Como se a repetição fosse uma medicina para nossa memória curta.
Precisamos ouvir muitas vezes aquilo que o receio tenta apagar.
Sua misericórdia dura para sempre.
Sua misericórdia dura para sempre.
Sua misericórdia dura para sempre.
Os iorubás ensinam que o bom caráter é a verdadeira beleza. E também ensinam que a língua pode matar uma pessoa; e que a língua também pode salvá-la.
Penso que a sabedoria desta semana esteja em cultivar uma consciência onde nenhuma palavra contrária consiga criar raízes.
Se o coração foi preparado pela humildade, pelo discernimento e pelo bom caráter, até aquilo que veio para ferir poderá florescer como bênção. Porque a bênção não escolhe favoritos. Ela encontra morada onde a vida é honrada. A luz procura bons recipientes para florescer sobre o bom caráter.
No fim, talvez seja por isso que Balak continue tão atual. Não é apenas uma história sobre um rei, um profeta ou uma jumenta. É uma história sobre aquilo que escolhemos dizer e sobre o caminho que escolhemos percorrer. A palavra pode tentar negociar com o ego. O destino, porém, responde ao caráter. Há palavras que abrem caminhos. Há palavras que nos fazem perder o rumo. Há destinos que florescem quando aprendemos a ouvir mais do que a insistir.
Então dito isto, lembre-se que no mundo sempre existirá um Balak desconfiado, um Balaão que acha que sabe tudo e uma jumenta paciente, humilde, silenciosa, tentando nos impedir de seguir por uma trilha onde nossa alma já não deve caminhar.
Encerro o texto com uma questão do Enem…
Se Anjos aparecerem diante de nós, teremos olhos para enxergá-los… ou continuaríamos discutindo nossas verdades?

O Salmo 135 recorda que D-us faz tudo conforme Sua vontade nos céus e na terra, nos mares e em todos os abismos. E talvez seja justamente nas águas que essa vontade se revela sem negociação, onde o controle humano se desfaz e a escuta se torna caminho. Entre Balak e Balaão, permanece o homem que insiste em suas próprias leituras; entre Pedro e o mar da Galileia, o homem que aprende que a verdade não se impõe pela força da convicção, mas se revela na obediência que atravessa o nada. É no mar que a noite vazia se transforma em pesca abundante, quando a rede já cansada encontra aquilo que não vinha do esforço, mas da direção. E dizem que o martim-pescador toca a água como quem atravessa mundos sem se afogar no que vê, sustentado por uma precisão silenciosa que não disputa com o rio, apenas o atravessa.
Amanhã é Dia de São Pedro, guardião das chaves e dos portos, e no sincretismo aquele que também caminha junto aos falangeiros de Xangô, onde a justiça não é grito, mas equilíbrio entre as leis do céu, do mar, da terra, do ar. “Ele é Xangô das Almas! Ele é feito nas Almas! Oh Almas! Ó minhas Almas! Seu Agodô, que venha nos valer!” — canto antigo que mergulhas nas águas da memória como pedido de alinhamento entre o destino e a consciência, entre o que se vê e o que se deve ver. Porque há coisas que só se revelam quando a palavra cede espaço ao silêncio, e a rede deixa de ser esforço para se tornar resposta.











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