Shoftim: As portas que guardamos

Guardamos o olhar para que ele não transforme diferença em ameaça. Guardamos os ouvidos para que não confundam rumor com verdade. Guardamos a boca para que a palavra não se torne arma. Guardamos a memória para que a dor não seja transformada em licença para ferir.

Guardamos o poder para que aquilo que sabemos sobre alguém não se transforme em instrumento de destruição. Guardamos, sobretudo, a própria certeza. Porque talvez não exista porta mais perigosa do que aquela que deixamos permanentemente aberta para a certeza de que somos os únicos capazes de enxergar corretamente.

O pensamento moderno ecoa esse dilema. Ao olhar para os sistemas e para as nossas próprias contradições, o filósofo Emmanuel Levinas nos lembra que a verdadeira ética nasce do encontro com o outro, do mistério e da vulnerabilidade estampados no rosto alheio. A vida, essa teia sagrada e impessoal, é o único código de ética que permanece.

Quando a religião e a política viram pedestais de certezas, elas se distanciam da vida. Quando se tornam consciência e responsabilidade pelo chão que compartilhamos, finalmente tocam a fonte.
Shoftim não começa falando de reis. Começa falando de juízes.

A palavra hebraica shofet carrega a ideia de quem julga, decide e estabelece uma ordem. Antes de governar os outros, alguém precisa aprender a discernir. Antes de apontarmos para o erro alheio, precisamos perguntar: quem está sentado dentro de nós com o martelo na mão?

Os olhos humanos podem ser cegados por muito menos que dinheiro.

Rashi, Ibn Ezra e Sforno nos oferecem portas diferentes para essa mesma casa, lembrando que a duplicação de tzedek pode apontar tanto para o julgamento quanto para a conciliação. A justiça não precisa necessariamente produzir vencedores e derrotados. Justiça não precisa humilhar para existir. Existe uma busca que devolve equilíbrio e outra que só quer que o outro sofra o que imaginamos que ele merece. Onde termina uma e começa a outra?

O Salmo 140 conhece esse limite com precisão: “Livra-me do homem mau; guarda-me do homem violento”. É o poema de quem sabe que a violência nem sempre começa com as mãos. Às vezes começa na língua e nos leva ao abismo das palavras afiadas, dos lábios que escondem o veneno do julgamento.

Antes do golpe, existe a narrativa. Antes da agressão, existe a intenção mal lapidada, a versão convenientemente incompleta, a palavra colocada no lugar certo para fazer alguém parecer o que não é. Como julgar sem conhecer a história inteira?

Shoftim exige que desarmemos o tribunal interno. A verdadeira prosperidade não é o acúmulo de certezas, mas a limpeza da percepção. É a capacidade de discernir o que nos constrói daquilo que nos destrói, pois a própria natureza se encarrega de dar o fruto da semente que plantamos.

Como escreveu a poetisa Cora Coralina, com a sabedoria das coisas simples: “Recria tua vida, sempre, em todo instante. Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça”.

Há uma pedra diante da porta. Podemos tropeçar nela, amaldiçoá-la, deixá-la no caminho ou removê-la. A imagem parece simples, mas talvez seja justamente aí que a vida esconda sua pedagogia: nem toda pedra precisa se transformar em altar para a nossa mágoa. Algumas precisam apenas ser retiradas da passagem.

O Salmo 139 torna essa pergunta ainda mais íntima: “Tu me sondas e me conheces”. Existe o que os outros veem, o que pensamos que somos, o que escondemos e aquilo que nem nós conseguimos enxergar. Por isso, a oração corajosa do salmista: “Sonda-me, conhece o meu coração… vê se há em mim algum caminho mau e guia-me pelo caminho antigo”. Em vez de pedir para expor o erro do outro, o poeta pede: olha para mim também.

O verdadeiro juiz talvez não seja aquele que aponta, mas aquele que suporta ser investigado pela própria consciência.

Na Cabalá, o ser humano é tratado como medaber, aquele que fala. Em Matot, a palavra era o chão da promessa: o que acontece depois que prometemos? Em Shoftim, a pergunta muda: o que acontece depois que acusamos? A palavra que antes construía um pacto agora pode fabricar uma sentença, fabricar monstros, fabricar culpas ou absolvições.

A justiça começa muito antes do tribunal público. Começa na maneira como contamos a história de alguém, no cuidado com o que sabemos e com aquilo que apenas supomos, e na coragem de dizer: “Eu não sei”. Que palavra pequena. Que território imenso.

O Construtor não precisa de advogados humanos para defender Sua soberania. Se a vida é o código e não existem preferidos no tecido da existência, então a ética precisa proteger a vida mesmo quando ela não se parece conosco.

Shoftim coloca limites severos sobre o poder. O rei pode existir, mas não pode multiplicar cavalos nem se colocar acima das leis. O homem no topo precisa lembrar diariamente que não é superior a ninguém.

A porta do poder também precisa de guardiões.

Martin Buber, ao pensar a liderança, nos alertava que nenhuma autoridade humana pode absorver a soberania absoluta. Não fazemos coroas apenas para reis.

Transformamos líderes, parceiros, influenciadores e amigos em oráculos, para depois nos decepcionarmos ao descobrir que continuam sendo humanos. E Abraham Joshua Heschel nos lembrava do perigo da indiferença, que não parece violência, mas pode ser uma neutralidade disfarçada.

Mas que tipo de chão estamos construindo quando o sofrimento do outro nunca consegue alcançar a soleira da nossa porta?

Talvez essa seja uma das perguntas mais difíceis de Shoftim. Porque existe uma diferença entre proteger a própria casa e construir uma casa onde ninguém mais pode ser ouvido.

Existem portas que protegem. Existem portas que aprisionam. Existem portas que impedem a violência. E existem portas fechadas apenas para que não precisemos testemunhar aquilo que nos incomoda.

Por isso, guardar as portas não significa erguer muros contra tudo o que vem de fora. Significa discernir.

Nem tudo o que bate à nossa porta merece entrar. E, quando algo provoca medo, desconforto ou estranheza, não precisamos ignorar esse sinal para parecermos abertos ou tolerantes. O alerta também é uma forma de conhecimento. O corpo percebe, a experiência reconhece, a intuição pressente e, para quem acredita, o espírito também pode advertir.

Mas um alerta não é ainda uma sentença. Ele pede atenção. Pede pausa. Pede investigação. Pede distância quando necessário.

Discernir não é convencer-se de que o perigo não existe. É saber reconhecer o perigo sem permitir que o medo invente perigos onde eles não existem. Há portas que precisam permanecer fechadas. Há pessoas das quais precisamos manter distância. Há palavras que não devemos acolher. Há situações diante das quais o corpo inteiro diz: “Não entre”.

Guardar a porta também é respeitar esse não. A justiça não exige que abandonemos nossos limites para provar que somos justos. Ela exige que não transformemos o nosso medo em condenação antes de compreender aquilo que está diante de nós.

Discernimento é saber a diferença.

Mesmo diante da tragédia, a parashá estabelece as cidades de refúgio para quem causou um dano sem intenção, separando a consequência do desejo de destruir. A cidade de refúgio não apaga a perda, mas impede que a vingança transforme uma tragédia em outra.

Maturidade é aprender que responsabilizar alguém e desejar sua destruição são coisas completamente diferentes. Nem toda batalha precisa ser travada por nós. Nem toda injustiça precisa consumir a nossa vida.

Prosperidade também é espaço interno, é não transformar a própria alma em tribunal permanente, é poder dormir sem precisar imaginar a queda de ninguém.

Os poemas de Manoel de Barros devolvem valor ao pequeno, ao aparentemente inútil, ao que foi esquecido pela lógica da grandeza. Shoftim faz algo semelhante ao limitar o poder: o tamanho de alguém não está no que possui, mas no que consegue sustentar sem esmagar os outros.

O que fazemos com o poder que recebemos?

Poder não é apenas governar. É ter uma informação sobre alguém, ser o adulto da casa, ter uma voz ou saber um segredo de quem depende emocionalmente de nós. É ter o poder de destruir uma reputação com uma frase e escolher não destruir.

É poder abrir uma porta e escolher quem será recebido. É poder fechá-la sem se questionar o porquê.

As portas que guardamos, portanto, são muitas. Guardamos as portas dos olhos, para não transformar aparência em sentença. Guardamos as portas dos ouvidos, para não fazer do rumor uma prova. Guardamos as portas da boca, para que a palavra não produza uma violência que depois chamaremos de sinceridade. Guardamos as portas da memória, para que uma ferida antiga não receba autorização para governar o presente. Guardamos as portas do poder, para que aquilo que recebemos não se transforme em licença para dominar.

E guardamos a soleira. Esse pequeno espaço entre o que somos e aquilo que permitimos que nos transforme.

A ancestralidade nos oferece caminhos, mas não nos dispensa de pensar e agir. O discernimento tem aqui uma função sagrada: perguntar também é uma forma de cuidado. Desconfiar da própria certeza é sabedoria. Não acreditar imediatamente no que nos convém é justiça. O maior perigo não é errar, mas ter tanta certeza de estar certo que deixamos de enxergar a quem estamos ferindo.

Quando a justiça chega à soleira?

Talvez quando conseguimos fazer uma pausa antes da sentença. Quando a informação não entra diretamente como verdade. Quando a dor não entra diretamente como vingança. Quando a autoridade não entra diretamente como superioridade. Quando o medo não recebe as chaves da casa. Quando conseguimos ouvir antes de responder, investigar antes de acusar, responsabilizar sem destruir e reparar sem transformar a reparação em espetáculo.

A justiça chega à soleira quando compreendemos que ela não existe apenas para decidir quem está certo. Ela existe para preservar o chão sobre o qual todos continuaremos pisando depois da sentença.

Porque uma casa pode permanecer de pé depois de uma briga, mas nunca permanece a mesma quando seus moradores transformam todas as portas em trincheiras.

Justiça é também aquilo que permite que o amanhã ainda tenha uma porta pela qual entrar.

Tzedek, tzedek tirdof.
Justiça, justiça perseguirás.
Duas vezes.

Como quem entende que ela não é um lugar onde chegamos, mas uma estrada que precisa continuar sendo escolhida.

O Salmo 139 avisa que a realidade nos sonda por inteiro. O Salmo 140 lembra que o mundo externo precisa de cuidado contra a violência, enquanto o mundo interno precisa de investigação constante. A verdadeira prosperidade nasce quando esses dois territórios conversam.

Que possamos “ser” chão suficiente para não precisar pisar em ninguém. Palavra suficiente para não precisar mentir. Sabedoria para reconhecer o que não sabemos. Coragem para reparar o que quebramos. E discernimento para não transformar perda em vingança.

A vida é o código.
O resto é interpretação.
E justiça é simplesmente aprender, todos os dias, a não esquecer disso.

Colocar guardiões e juízes nas portas é, em última análise, um ato de responsabilidade. É escolher o que entra na mente e o que sai do coração. É compreender que o chão sagrado nunca será uma terra feita apenas para todos, mas que sempre haverá um espaço sagrado para aqueles que decidem cuidar da própria vida e da vida da comunidade.

Talvez seja esse o segredo das portas. Elas não existem apenas para dizer não. Existem para nos ensinar como dizer sim.

Sim ao que merece entrar. Sim ao que precisa ser protegido. Sim à verdade que ainda não conhecemos. Sim à reparação. Sim à responsabilidade. Sim à vida.

E, sobretudo, sim à possibilidade de que o outro não precise ser diminuído para que nós possamos existir.

Que o discernimento nos traga a prosperidade de um olhar claro, de quem não precisa julgar para existir, e o saber silencioso de que a justiça mais bonita é aquela que chega à soleira, olha para dentro, olha para fora e escolhe, cuidadosamente, o que deixará florescer.


Referências:
Torah: Devarim/Deuteronômio – Parashat Shoftim. Tehillim: 139; 140.

Nota sobre a soleira: Na linguagem bíblica, “soleira” não corresponde simplesmente à imagem moderna de uma pequena peça de mármore ou madeira colocada no piso de uma porta. O termo traduz palavras hebraicas utilizadas para designar a parte inferior ou a entrada de uma construção, especialmente em contextos nos quais a própria entrada possui importância. Entre elas está miphtan (מִפְתָּן), que aparece em diferentes passagens, inclusive em Ezequiel, e há também saf (סַף), igualmente traduzido conforme o contexto como soleira, batente ou entrada. A palavra, portanto, pertence à linguagem concreta da arquitetura bíblica, mas sua presença ganha densidade conforme o lugar em que aparece.

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