
Arte: Pedro Ruiz
Eu morava ali,
Em algum ponto além da linha das árvores,
Em algum ponto dentro do olho da figueira que plana na serra,
Em algum ponto na pedra encantada com musgos milenares.
Eu morava ali,
No breu da cachoeira, por detrás dos véus sedosos das águas,
No bocejar da onça que baila sobre a mata virgem da sua Maria,
Na colina de flores e frutos, entre arcos e flechas sustentando guerreiros.
Eu morava ali,
Na essência das ervas, no sagrado da cura, na beleza da dança,
Na taioba, na água do mandacaru, no sangue da ora-pro-nobis,
No incenso queimado da seiva,
No cedro que exala um mantra antigo e puro, no alecrim que embeleza a mente…
Ahh, o meu Palo Santo!
Eu morava ali,
No manto da toca da Jurema, entre porcos e tatus e lindas borboletas azuis,
Na cama quente e sedutora do urso, na transmutação da cobra,
Nos olhos da águia, no caminho do rinoceronte, na mente do elefante.
Eu morava ali,
No fundamento, nas histórias passadas por anciãos que bebem das águas enamoradas do amor,
No sagrado, no respeito, na continuidade dos ancestrais, na vivência cabloca,
No brilho no seu anel, no esplêndido da sua busca, na colheita da sua justiça, no sal dos olhos.
Eu morava ali,
No alto da montanha do mar, onde as águas do rio desembocam com risos e raios,
No bailar do cais, nas ondas que lavam minha embarcação, minhas ânsias,
Enquanto o vento traduz a canção que o seu tambor toca.
Eu morava ali,
Onde ela se admira no espelho e baila para os meus olhos cheios de lágrimas,
Fazendo parar até o céu e espalhando folhas pra construção.
“Espalha mais!” – Sabedoria. Disse ela.
Eu morava ali, mas não morei ali.
Não somos daqui.
Estamos partindo, estamos voltando, estamos indo, estamos retornando para irmos novamente.
Nota: Encontraremos onde a presença soa como um presente Divino.
Aho, Gratidão!









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