Namorado, II

Quero os olhos e os ventos quentes… “Tira de mim toda culpa que me assalta em todo fim!” Desejos do corpo, que não pedem, mas solicitam. Não querem presença, mas cogitam o gosto do corpo, o aroma e o calor que não sentem.

É querer muito pretender quem ainda não é nosso? Não no estado obsessivo da posse, mas no arder da querença e no estado mental do corpo. Devolvo a mente à lembrança do olhar e dos desejos criados que emolduro em pensamentos. Escrevi alguns por aí e queimei na pele outros mais displicentes.

Devolvo, só por uns instantes, uns momentos em que a brisa assobiou tua voz. [Tua voz, cadê?] Não pude evitar, Amahris…

Quero o intelecto e o som das tuas palavras flertando com a libido do corpo, o sorriso namorando gemidos, os sussurros traduzidos em sons audíveis e os teus silêncios expressados com as mãos. Aliso a maciez do rosto, coloco todos os fios de volta… Gostosa admiração!

Desejo a mão mais que o corpo, quero o som mais que os lábios… Li a voz de alguma mensagem, mas, por fim, voei desse desejo do qual não pertencemos e retornei para alguma parte do consciente… “Às vezes, piro e vou por aí em vão. Piro e giro como um pirocóptero, no intuito de voltar ao útero…”

Cheiro os pelos, solto finalmente as madeixas, banho-me num algibe de mel com o ratel, percorro a pele do lobo cinzento mais do que olho para os desejos do cordeiro. És um leão com garras de águia, és um penacho com curtas asas e voos altos. Pro alto, Passarinho, não por grandeza, por força.

E devemos planar serenos como o albatroz, ser leais como os pinguins, migrar igual baleias e mergulhar com percursos bem definidos. Tens olhos de gavião real! E tu, serás real? Um galo silvestre? Ou só mais um anseio de uma “miragem” descrita em letras e desejos?

Toco partes de pensamentos. Um silêncio flerta com a emoção, a incerteza fez as malas desse querer e percorre passos movediços… e eu quero o olfato, o tato. E o namorado, o que prefere? Lábios.

Ele quer a sede da boca que suga as águas, ele quer a fala que nunca ouviu, o grito que nunca causou, as mãos que negaram o toque, o beijo, a permanência. Ele quer o amor que nem pretende, a recompensa que merece, e por fim, ele quer sorrir e ele irá sorrir – sorrir sem preocupações, deleitar a leveza em dias alegres, apreciar horas felizes e sem sustos ou surpresas tristes.

Senti parte dos lábios e a pele estava ligeiramente seca – estou desidratada. Tirei o batom faz tempo, manchei a pele com maquiagem e, na última vez que chorei, desisti. Considerei melhor guardar as tintas que disfarçam as lastimas e não tocar nas ilusões doadas em corpos frios.

Guardei vontades, emoções, versos e poesias, retirei-me da cena do mundo e de alguns problemas que busquei. Não, Passarinho… isto não diz respeito a você, é comigo, não é conosco. E não há nada conosco. Nada de amores e desamores ou possíveis amantes, tão pouco desgostos.

Aho! Eu ainda suspiro-te, Namorado. Continuo sem saber como tiraste os meus brincos…

Será que estarei de brinco? Estarei no passo da maré, alocando fundeio, desviando os sinais das piriricas, desvendando faróis ou caçando azurinas? Indo contra esse bafejo que sopra a voz, transformando os dias em horas acrescidas, mergulhada em maresia até o singrar.

Na ânsia, permanecerei mareada desse vai e vem que nunca veio. Por fim, desconstruirei cada suspiro.

Devolvo por pura pretensão maldosa de sentir no corpo a sensação gostosa que minha mente barulhenta pode causar. Ela ecoa sons inaudíveis; vez outra, sussurra pausadamente o nome. Que nome? Que nome, Amahris?

Não devemos evitar o escorrer do querer, dos desejos conjecturados e nem dos nossos lindos olhos de abutres. As lembranças serão sempre fúlgidas e as reminiscências eternas. Sorria para o Marujo.

Que sorriso ilumine seu caminho!

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